
“A Avó e a Neve Russa” de João Reis
Estamos perante um livro encantador, com uma história narrada por uma criança, mas que não tem nada de infantil, exceto a linguagem do narrador, aliás de um acerto total.
Russkiy que não se chama Russkiy, mas que todos tratam por Russkiy, é uma criança de 10 anos, filho de emigrantes russos, mas que residiam na altura do desastre nuclear na Ucrânia, porque o seu avô era engenheiro na central de Chernobyl. Morto o avô, a família emigrou para o Canadá e, depois de várias peripécias, restam agora a avó, Russkiy e o seu irmão mais velho Andrei. Este trabalha numa pizzaria, mas fuma “ervas medicinais” e pouco contribui para as despesas. A avó recebe uma pequena pensão do tempo que trabalhou no Canadá. Agora é velhinha e doente por ter os pulmões “rasgados”, vítima dos “ares atómicos” como diz Russkiy, que a trata carinhosamente por Babushka. Russkiy é uma criança cheia de imaginação, mas muito bom aluno e interessado em adquirir conhecimentos; a sua professora gosta muito dele e tenta protegê-lo dos maus-tratos dos colegas, especialmente do menino rico da turma, por acaso mau aluno e má pessoa.
Esta é a família central do romance e à sua volta gravita um conjunto de vizinhos, quase todos imigrantes das mais variadas origens, religiões e culturas. Todos dão mesinhas e rezas para ajudar a curar a Babushka. Entre eles, está um português, dono da loja do rés-do-chão do prédio, que dá a Russkiy umas pagelas do “Deus-Galo” com orações. Mas nada parece fazer bem à Babushka e esta está cada vez pior, acabando por ser internada. É então que Russkiy decide empreender uma viagem ao México, para dali trazer as folhas do cato milagroso, como última tentativa para salvar a sua avó. É uma viagem cheia de peripécias e contrariedades, na companhia de um sem abrigo seu amigo que tudo faz para o ajudar. Conseguirá o milagre de curar os pulmões “rasgados” da Babushka? De facto, vai mesmo conseguir um milagre, embora não seja o que ele e os leitores, neste ponto totalmente rendidos à candura de Russkiy, desejam…
João Reis construiu uma história maravilhosa. Entrou totalmente no coração e na cabeça da criança de 10 anos que fez seu narrador e deixou-nos uma escrita de grande beleza e muita ingenuidade. Vai ao ponto de nos apresentar conceitos tal como uma criança os apreende e verbaliza. São exemplos alguns dos termos já atrás referidos, mas outros podia citar, como, por exemplo, o “macroscópio” para ver as coisas pequeninas, a “xenofilia” que ele observa em muitas pessoas, os “icónicos” de que a avó é muito devota, os “padarastas” de que falou o polícia que foi lá à escola, ou o “Deus-Alá” ao qual reza o vizinho ajoelhado no tapete.
Este livro pode ler-se rapidamente, porque não é grande e apresenta uma escrita sem artifícios e agradável de ler. Mas, na minha opinião, deve ler-se com calma, absorvendo os conceitos que o autor nos transmite através da linguagem simples e cândida de uma criança: que não devemos desesperar, por maiores que sejam as contrariedades, que há sempre alguém em pior situação do que nós, que todos devemos ser amigos e auxiliar-nos mutuamente, independentemente das nossas crenças, usos, origens ou raças. Também não devemos esquecer as nossas raízes e devemos preservar o passado que é transmitido de avós a netos, por mais triste e sofrido que ele se apresente.
Editora: Elsinore, fev/2017
Publicado no Segredo dos Livros em 29 de junho de 2017
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