
“AMADA VIDA” de Alice Munro
Alice Munro é uma escritora canadiana que nasceu e passou a maior parte da sua vida na região do Lago Huron, situado na província de Ontário, no qual fica Ottawa, a capital do Canadá. Era descendente de imigrantes escoceses, que tinham vindo para a América nos princípios do século XIX e eram agricultores. Nasceu em 1931 e acompanhou a 2ª Guerra Mundial à distância, enquanto estudava.
Comecei por apresentar estes dados biográficos da autora deste livro, porque são de grande importância para conhecer o seu conteúdo, assim como de toda a obra de Alice Munro.
“Amada Vida” é um livro de contos e o seu último livro. Felizmente, está viva e pode vir a editar novos livros, mas foi ela a afirmar que este livro era a sua despedida. Foi editado em novembro de 2012, tinha ela, portanto, 81 anos de idade. Numa entrevista ao The New Yorker por ocasião do lançamento, afirmou sentir o peso da idade, que começava a esquecer palavras e era altura de parar. As últimas quatro histórias deste livro representam uma despedida, uma espécie de testamento literário.
São precedidas de um pequeno prólogo com o título “Final” que transcrevo: “Os últimos quatro trabalhos deste livro não são propriamente contos. Formam um conjunto à parte, autobiográfico no sentido, embora nem sempre no que concerne aos factos. Penso que são as primeiras e últimas – e mais íntimas – coisas que tenho a dizer sobre a minha vida.”
“Amada Vida” é, como todos os livros de Alice Munro, um livro de contos. O Comité Nobel que lhe atribuiu o Prémio Nobel de Literatura em 2013, um ano depois desta sua despedida literária, salientou que “ao longo da sua vida e carreira, Alice Munro reflete a vida que viveu, que viu os outros viverem, as vidas que conheceu e imaginou.” E que “da primeira à última – seja qual for a última – as histórias de Munro revelam-na como uma artista consumada que está, sem dúvida, entre os mestres mais talentosos do conto.”
Tal como o Comité Nobel, também eu lhe reconheci, ao ler este livro, um enorme talento para o conto. Não se pense que é um género fácil. Diz quem sabe que é mais difícil criar uma ‘short story’ que empolgue o leitor, do que uma ‘novel’. Criar uma história numa dúzia de páginas, onde haja espaço para caracterizar personagens, desenvolver uma trama complexa e acabar com um final surpreendente, ou que deixe o leitor impressionado, é mais difícil do que desenvolver a mesma história em 300 ou 400 páginas. Tudo isto acontece nos contos de Alice Munro. São pequenas histórias que ficam na mente do leitor, onde nada falta, nem nada sobra.
Outra característica interessante neste e nos outros livros de Munro é o cenário. Todos os seus contos são ambientados na zona da sua terra natal, entre o lago Huron e a cidade de Toronto. Mesmo os contos que escreveu enquanto residiu em Vancouver depois de se casar, eram ambientados naquela zona, que ela descrevia mentalmente.
Se me perguntarem quais os contos de que gostei mais, não será fácil a escolha. Na entrevista atrás referida, Alice Munro cita “Amundsen”, por ter sido o que lhe deu mais problemas, e “Orgulho”, porque é o único onde aparecem tristes-pias a passear na relva (triste-pia é uma ave que vive nas zonas pantanosas onde Munro nasceu, de que eu nunca tinha ouvido falar e tive de pesquisar). Na verdade, também são dois dos que mais gostei, embora não pelos mesmos motivos. “Amundsen” conta a história de uma jovem professora que foi dar aulas às crianças de um hospital para tuberculosos e se apaixonou por um médico que não a merecia; “Orgulho” é a história de um homem com lábio leporino que cresceu traumatizado por esse facto e reencontra em adulto uma colega de escola por quem se apaixonara secretamente em criança e pode ser a sua redenção.
Também não quero esquecer o conto “Amada Vida” que dá nome ao livro e faz parte daqueles que Alice Munro considera autobiográficos, com o qual o livro fecha. Depois do que li sobre a biografia da autora, não tenho dúvidas de que tudo aquilo é verdadeiro, é um pequeno resumo da sua vida pessoal, como filha, esposa e mãe. Terá sido o tal “testamento literário” que ela deixa aos seus leitores.
Editora: Relógio D’Água, maio/2013
Escrito em 4 de setembro de 2020
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