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Chamo-me Sebastião Barata e resido em Lisboa. Tenho 79 anos e leio desde muito novo. Uso a minha grande biblioteca para fazer vídeos e áudios que divulgo nas minhas redes sociais. Sigam-me!

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“A REVOLTA DOS ANJOS” de Anatole France

 Anatole France é um escritor francês com um lugar especial entre os clássicos do seu país e internacionalmente. Foi galardoado com o Prémio Nobel de Literatura em 1921. Era muito culto e crítico da sociedade do seu tempo. Os temas dos seus livros giram à volta de políticos corruptos, de opressores dos fracos ou pobres e da religião como alienadora, interesseira e comandada por clérigos devassos. A mulher aparece quase sempre como a corruptora que se serve da sua beleza para explorar amantes ou do sexo como forma de vida; o homem é o macho obcecado que não lhe consegue resistir às habilidades e aos dotes das mulheres. Todas estas características são bem explícitas em “A Revolta dos Anjos”, o seu último romance, a coroa de glória da sua ficção romanesca.

 

Como o nome sugere, o centro da ação é o plano de um grupo de anjos descidos à Terra para preparar a destituição de Jeová a que chamam Ialdabaoth. Tudo começa quando o anjo da guarda de Maurício, um herdeiro de uma família rica, se lhe revela fisicamente no momento menos oportuno e lhe declara que está farto da vida monótona que tinha passado os últimos tempos a ler antigos alfarrábios da biblioteca da família e já não acreditava em Deus, pelo que estava a preparar uma revolta para O destituir e derrubar do seu trono celestial. Este anjo, que adotou na sua nova vida terrena o nome de Arcádio, começa a sua demanda em busca de apoiantes, acabando por descobrir milhares de anjos dececionados com a gestão de Deus no céu e na terra.

Ao longo do livro, vamos encontrando anjos caídos a viver os mais variados papéis terrenos e, surpresa, são em tudo semelhantes a nós, no que toca a sentimentos, com a agravante de não conseguirem fingir, por não terem sido “domesticados” por uma educação cristã, pelo que são incapazes de dominar os seus instintos. É assim que vamos encontrar anjos ávidos por sexo, ávidos por riquezas, ávidos por poder, traidores dos seus melhores amigos, prontos para matar sem remorsos, enfim, tudo o que o ser humano tem de mais baixo e animalesco.

No meio disto tudo, como fica o projeto da rebelião? Não vou adiantar muito para não retirar interesse à leitura. Mas, para aguçar o apetite dos próximos leitores, ainda digo que os revoltosos chegam ao conhecimento de que Lúcifer, o chefe da revolta primordial que tinha perdido e sido precipitado no inferno, com a nome de Satã, se encontra na Terra como Diónisos (adotado pelos gregos como deus do vinho), é idolatrado pelos anjos seguidores que lhe restam e tem sido ele a conduzir a humanidade ao longo dos milénios. Convidam-no para chefiar a nova rebelião. Será que ele vai aceitar? Mas, com ou sem Satã, será que a revolta vai acabar por consumar-se e Aaldabaoth apeado do seu trono celestial? Acreditem que a surpresa vai ser grande.

Como podem ver, Anatole France utiliza a figura dos anjos como metáfora para aquilo que pensava sobre o ser humano e a sociedade do seu tempo e projeta neles todos os vícios a que já atrás me referi, assim como as questões sociais e políticas. Não esqueçamos que este livro foi escrito alguns anos após a Primeira Guerra Mundial, em plena recessão; as novas ideias socialistas e anarquistas conquistavam todos os dias novos adeptos e o próprio Anatole France aderiu ao Marxismo, chegando a estar filiado no Partido Comunista, de que se afastou mais tarde.

Quanto à escrita, Anatole France escreve num estilo simples e de fácil compreensão, utilizando uma linguagem clara e agradável para o leitor. A ironia e a forma como ridiculariza dogmas, crenças e preceitos religiosos, sociais e políticos, assim como a vida artificial e de aparências da generalidade das pessoas, reforça a nossa sensação de bem-estar e satisfação ao ler este livro. Claro que não agradará a todos, especialmente aos crentes mais dogmáticos que não sejam capazes de ver o que o autor pretende mostrar, para lá da crítica social.

Editora: Cavalo de Ferro, julho/2017

Comentário escrito em junho de 2020

 

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