
“OS MOEDEIROS FALSOS” de André Gide
“Os Moedeiros Falsos” foi o último romance de André Gide, embora escrito 20 anos antes da sua morte. Depois dele, ainda publicou muitas obras de outros géneros, como ensaios, memórias, testemunhos de viagem e livros de protesto político e crítica social. De facto, André Gide foi sempre muito frontal em tudo o que escreveu. Prezava acima de tudo a sua liberdade de pensamento e a sua independência. Lutou contra a discriminação sexual e de género, e defendeu os direitos das mulheres. Lutou contra tabus existentes na sociedade do seu tempo e contra a hipocrisia política e religiosa, o que lhe valeu grandes inimizades, nomeadamente da Igreja Católica. Era homossexual, o que não impediu que se casasse, embora com um casamento de fachada que nunca foi consumado.
Naquele tempo, a homossexualidade era considerada uma perversão e um pecado imperdoável, pelo que poucos se assumiam como tal. Apesar da frontalidade que o caracterizava, só assumiu publicamente a sua inclinação sexual depois de se separar da esposa, altura em que publicou, finalmente, o seu livro “Corydon”, escrito há mais de uma década, no qual assumia a sua condição, denunciava a homofobia e defendia o direito a cada um poder seguir livremente a sua consciência e as suas tendências em matéria de sexo. Tinha então mais de 50 anos de idade e foi um escândalo, em plenos “loucos anos 20”, como ficou conhecida aquela década na História. Gide, que já era famoso e uma pessoa com muita influência, também terá contribuído com a sua frontalidade para cativar a juventude da época e catalisar a tendência para a mudança na forma de pensar e de agir que estava a nascer.
O romance “Os Moedeiros Falsos” foi editado no ano seguinte a “Corydon” e espelha bem esta nova postura do autor que, aliás, não era assim tão nova, porque, embora de forma mais mitigada, sempre foi a sua posição desde a juventude.
A trama do romance gira à volta de um grupo de jovens parisienses em finais da sua instrução básica e prestes a entrar no mercado de trabalho, enquadrados por um escritor homossexual, tio de um deles, que os apoiou e defendeu de entrarem na delinquência. À volta destes protagonistas, gira um conjunto de personagens que ajudam a definir o pensamento do autor que, na minha opinião, dá muito de si à história. Há uma jovem mulher casada que, doente com tuberculose e convencida de que ia morrer, se envolve com outro doente, donde resulta uma gravidez; abandonada pelo amante, teme voltar para o marido e é o escritor que lhe dá a mão e a orienta no sentido da melhor decisão. As famílias dos jovens, bem posicionadas na sociedade, procuram abafar o caso quando estes se envolvem com traficantes de moeda falsa. Há outras personagens típicas da sociedade da época, em que todos pareciam muito honestos na vida e fiéis no casamento, mas eram desonestos, adúlteros e pouco dedicados à família e aos filhos, cuja educação descuravam.
Achei muito interessante a forma de construir a história, aliás muito típica de Gide, porque aparece noutras obras. A personagem do “escritor” passa todo o livro a coligir dados para escrever o romance a que, desde o início, decidiu chamar “Os Moedeiros Falsos”, muito antes de se imaginar que iria envolver um caso de moeda falsa que, aliás, só aparece em dois pequenos trechos do livro e num plano muito secundário da narrativa. Penso que a ideia de André Gide é denunciar a falsidade da sociedade retratada no livro, sendo aqueles pais e mães meros falsários que vendem os filhos a troco do dinheiro falso que é a sua vida de fachada.
Gide gostava de tomar notas e foi escrevendo imensos diários ao longo da vida, que começou a publicar alguns anos antes da Segunda Guerra Mundial e foram o principal género literário da sua fase final, estando a preparar a edição do último quando morreu em 1951. Também esta sua forma de escrever está bem patente em “Os Medeiros Falsos”, pois o “escritor” passa o livro todo a registar num caderno os acontecimentos que vão ocorrendo, acabando a obra por ser, afinal, uma simbiose entre estes apontamentos e as intervenções do narrador que, como observador distante, vai fazendo a ligação entre estes registos avulsos, do que resulta um romance inovador e de fácil leitura.
Pela sua escrita inovadora e pela frontalidade revelada ao longo de toda a sua obra, André Gide foi galardoado com o Prémio Nobel de Literatura em 1947.
Editora: Âmbar, maio/2004
Comentário escrito em setembro de 2020
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