
Comentário ao livro “A Conquista da Felicidade” de Bertrand Russell
Bertrand Russell escreveu este livro na década de 30 do século XX, numa época entre guerras, quando a instabilidade política e social era grande na Europa, a crise económica era grave e as pessoas sonhavam com a felicidade que não tinham. Ele próprio não estava a viver uma vida fácil, porque tinha perdido o emprego e, apesar de ser membro da alta nobreza inglesa, passou algumas dificuldades e teve de escrever livros ao gosto do grande público que lhe dessem rendimento para governar a sua família que tinha crescido com o nascimento de um casal de filhos.
“A Conquista da Felicidade” é um manual escrito por um intelectual, insigne matemático e filósofo, mas numa linguagem acessível ao leitor comum, cheio de bons conselhos para alcançarmos a felicidade. É verdade que já passaram 90 anos e alguns dos conceitos estão desatualizados.
Por exemplo, a grande maioria das mulheres eram donas de casa, sendo poucas as que tinham estudos superiores. Mesmo as que tinham estudado deixavam os empregos quando casavam, para se dedicar à educação dos filhos, que eram criados quase sem intervenção do pai, cuja missão era ganhar para governar a família. Além disso, sendo um Lord da alta nobreza, cresceu numa família onde havia empregados para tudo, pelo que aceitava como natural a existência de classes sociais. Como membro da classe mais privilegiada de um império colonial como o britânico, também aprendeu a classificar as pessoas em função da sua origem e/ou da cor da pele.
Por isso, é importante começar por ler o excelente prefácio do também eminente filósofo Daniel C. Dennett que nos ajuda a dar o “desconto” e ler o livro à luz dos conceitos da sociedade atual. Com esta ressalva, é um livro que continua muito atual e vale sozinho por algumas dezenas dos milhares de livros de “autoajuda” que enchem os escaparates das livrarias.
Outro importante alerta é conhecermos o pensamento filosófico, moral e religioso do autor. Bertrand Russell foi educado pela sua avó na observância estrita da etiqueta vitoriana e da religião anglicana, mas cedo começou a perder a fé. Quando atingiu os 18 anos, declarou-se definitivamente ateu e começou a escrever livros onde refutava as religiões em geral e a cristã em particular, por acreditar que já não tinham lugar numa sociedade onde a ciência encontrava todos os dias pontos de fricção com os preceitos religiosos. Um dos seus livros mais controversos sobre o tema, e que lhe trouxe graves contratempos, foi “Porque não Sou Cristão”, assim como outros sobre o divórcio, adultério e sexualidade. Russell acreditava que devíamos fazer tudo para conquistar e manter a felicidade na nossa vida, mas devíamos vivê-la neste mundo. Considerava ridículo aceitarmos o sacrifício, a inevitabilidade do sofrimento neste mundo, para conseguirmos a felicidade numa vida depois da morte, em que ele não acreditava. A ideia era: devemos fazer tudo para sermos felizes e fazer felizes os que estão à nossa volta, para deixarmos o mundo melhor do que o encontrámos. Viemos da terra, somos uma partícula do universo, à terra voltaremos. Esta é a filosofia subjacente a este livro e este é tipo de felicidade que ele nos mostra e nos estimula a procurar.
Finalmente, quero referir-me à organização do livro, que está dividido em duas partes. Na primeira, o autor apresenta-nos o que devemos evitar e mudar na nossa vida, porque contribui para nossa infelicidade; na segunda, apresenta-nos o que devemos estimar e desenvolver, porque é isso que nos conduz a uma vida feliz. Na primeira parte, fala-nos da inveja, da ambição, da mania da perseguição, do sentido de culpa, associado, por vezes, à noção de pecado, do medo da opinião pública, entre outros temas. Na segunda parte, incentiva-nos a desenvolver o gosto de viver e desenvolve capítulos sobre a afeição, a família e o trabalho, sempre na perspetiva em que contribuam para a nossa felicidade; aconselha-nos a sair do nosso egoísmo e desenvolver os interesses interpessoais, a valorizar o esforço e a resignação quando as coisas não nos correrem como desejaríamos. Volto a repetir: um excelente livro de autoajuda, sem submissão a dogmatismos, religiões e outras crenças alienatórias.
Editora: Relógio D’Água, março/2015
Escrito em julho de 2020
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