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“O Doutor Jivago” de Boris Pasternak

“O Doutor Jivago” é o único romance de Boris Pasternak, um escritor russo, mais conhecido no seu país como poeta, que nasceu nos finais do século XIX e atravessou todos os conflitos do século XX, nomeadamente a Primeira Grande Guerra, a queda do regime dos Czares e a implantação do bolchevismo na Rússia, a constituição da URSS, a sanguinária ditadura de Estaline e a Segunda Guerra Mundial. Filho de uma família judia influente, conseguiu escapar de ser enviado para os Gulag, apesar de ser perseguido pelo regime, por defender o povo que passava fome e maus-tratos infringidos pelos que dominavam as estruturas do poder comunista.

Tudo isso ele verteu nesta obra monumental cuja publicação foi proibida, acabando por ser passada clandestinamente para Itália, onde foi publicada em 1957, sendo traduzida de imediato para inglês e publicada nos Estados Unidos, tornando-se um best-seller quase instantâneo que valeu ao autor a atribuição do Prémio Nobel de Literatura de 1958.

Claro que não lhe foi permitido ir receber o prémio. Pelo contrário, a distinção trouxe-lhe o repúdio dos meios literários de Moscovo, assim como a ameaça de perder a nacionalidade russa e ser exilado para o seu “querido ocidente capitalista”, coisa que não correspondia à verdade, porque ele amava o seu país e o seu povo, e ter de abandoná-lo seria o maior dos castigos que lhe podia ser infligido. Dois anos depois, morreu e não pôde assistir à queda do regime comunista e ao desmembramento do império soviético.

A história que serve de fio condutor ao livro é o triângulo amoroso entre Jivago, Tonia a mulher com quem casou e de que teve dois filhos, e Lara a grande paixão da sua vida. Jivago conheceu Lara superficialmente em Moscovo quando era jovem. Ele era órfão e foi criado com a família de Tonia, uns familiares relativamente afastados. Entretanto, todos cresceram, Jivago licenciou-se em Medicina e Tonia em Direito e casaram, segundo os desejos da família. Lara conseguiu acabar os estudos e casou com Pacha, filho de um revolucionário pró-socialista, que acaba por ser dado como desaparecido na guerra.

No decurso da Grande Guerra, Jivago é ferido e no hospital encontra Lara, que se tinha alistado como enfermeira para tentar encontrar o marido desaparecido. Apaixonam-se, mas Jivago não quer trair a esposa e afastam-se. No fim da guerra é constituído um governo provisório, mas os “vermelhos” começam a ganhar muita força e a vida é cada vez mais difícil em Moscovo, onde tudo falta e a insegurança é constante. Jivago decide mudar-se com a esposa e o filho para a zona dos Urais, de onde a família de Tonia era originária e tinha propriedades. Descobre que a luta entre “brancos” e “vermelhos” também ali era uma realidade, os bens da família tinham sido nacionalizados e a vida não lhes sorriu.

Encontra-se com Lara e o seu antigo amor renasce, voltando Jivago a debater-se com os seus escrúpulos, mas deixa-se enredar numa vida dupla. Entretanto, um grupo que se autointitulava os “verdes”, constituído por pessoas que não se identificavam com nenhum dos campos em confronto e vivia escondido na floresta, capturou Jivago para ser seu médico, forçado a viver na mata durante vários anos. Quando o grupo acabou por ser desfeito e Jivago regressou, soube que tinha mais uma filha que não conhecia e Tonia tinha regressado com os filhos para Moscovo. Teve um encontro memorável com o marido de Lara, um famoso militar na região, que vivia sob a auréola de uma alcunha de guerra. Este não se tinha dado a conhecer a Lara, mas sabia do enredo dela com Jivago, e suicidou-se no final da longa conversa. Lara junta-se a Jivago e vivem um idílio na sua propriedade no campo.

Entretanto, aparece um velho amigo da família de Lara que a convence a acompanhá-lo para uma afastada região nos confins da Sibéria. Jivago apoia a ideia por ser o melhor para ela, mas fica de rastos após a sua partida.

Resolve regressar a Moscovo e, ao chegar depois de uma viagem demorada e atribulada, descobre que a esposa tinha fugido para o ocidente com os filhos. Não consegue emprego, ainda tem um relacionamento com uma jovem de quem tem duas filhas. Tenta reunir os seus muitos apontamentos e escrever um livro com a sua história, mas acaba por morrer de ataque cardíaco, na véspera do regresso de Lara, que ainda assiste ao seu funeral.

Um meio-irmão de Jivago, bem relacionado com o regime soviético reúne os apontamentos de Jivago com o apoio de Lara e acabam por publicar o livro da vida do “Doutor Jivago”.

Esta é a coluna dorsal deste monumental romance que a maioria das pessoas conhece do famoso filme dirigido por David Lean, com Omar Sharif, Julie Christie, Geraldine Chaplin e Rod Steiger nos principais papéis. Mas o livro é muito mais. É a epopeia de um povo martirizado que viu desaparecer de um dia para o outro tudo aquilo em que acreditava: a propriedade que herdara dos seus antepassados conseguida por vezes com muitos sacrifícios; a religião que lhe servia de amparo e a cultura de nação orgulhosa dona de tradições milenárias. O romance mostra o abandono dos campos, a derrocada do ensino, a degradação das estruturas sociais, a fome, as perseguições, a prepotência dos novos senhores que tanta felicidade prometeram àquele povo e tantas desgraças lhe trouxeram.

Um aspeto interessante é que Pasternak centrou a sua atenção nestes miseráveis que foram espoliados de tudo, o que mostra com um realismo impressionante. Aquilino Ribeiro aponta na introdução ao livro que Pasternak só descreve “febres, desordem, fúria, desprezo da vida, neve na terra e, aqui, além, neve nos sentimentos”, considerando uma lacuna centrar-se em personagens de “terceiríssima ordem” e esquecer aqueles que foram os grandes obreiros da “Revolução Russa”. “Uma só vez, a menos que me passasse despercebido, se dá com o nome de Lenine. Trotsky não de descortina sequer”, escreveu Aquilino. E não se engana, porque de facto o nome de Lenine só é referido de passagem num breve trecho do romance e nenhum outro dos grandes obreiros da revolução são aqui referidos.

De facto, são estas personagens de “terceiríssima ordem” que fazem de “O Doutor Jivago” uma das mais fiéis descrições da tragédia que o comunismo foi para a gloriosa nação russa que, mesmo depois da queda da URSS, continua a não ser um povo verdadeiramente livre e soberano.

Comentário escrito em março de 2021

 

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