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Chamo-me Sebastião Barata e resido em Lisboa. Tenho 79 anos e leio desde muito novo. Uso a minha grande biblioteca para fazer vídeos e áudios que divulgo nas minhas redes sociais. Sigam-me!

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Estava Deus a gozar tranquilamente a eternidade, sentado no Seu trono resplandecente. Os coros dos anjos entoavam dulcíssimos hinos de louvor e glória: “Hossana, hossana, hossana nas alturas! Hossana ao nosso Deus eterno e omnipotente!” Tudo e todos estavam envolvidos na luz celeste; tudo e todos faziam parte dessa luz, perante a qual mil sóis não passavam de uma noite escura.

– Deus-Pai, Deus-Pai! – grita o Arcanjo Gabriel, que acaba de entrar nos aposentos incomensuráveis de Deus. – Lúcifer e Miguel estão de novo a lutar! Já não sei o que hei de fazer para os impedir. Só Vós, Senhor, sois capazes de os fazer parar.

Os Tronos calaram os seus salmos de louvor, os Serafins empalideceram e os Querubins começaram a chorar em altos gritos. Então, Deus sentenciou:

– Temos de tomar medidas para impedir que a luz seja aniquilada pelas trevas. – E mandou chamar os beligerantes à Sua presença.

 

Vieram ambos, resplandecendo na sua grandeza de generais do exército de Deus. Todas as outras criaturas presentes se curvaram, para se protegerem do intenso brilho da sua luz.

Inquiridos por Deus sobre a sua conduta, ambos os arcanjos rejeitaram responsabilidades. Miguel dizia que, desde que o Céu foi criado, Lúcifer passava o tempo a tentar aniquilá-lo com o seu tridente de escuridão. Este dizia que era Miguel que o pretendia desintegrar com a sua espada de luz. E não se saía deste impasse.

Então Deus, na Sua sabedoria infinita, tomou uma decisão:

– Que infeliz ideia a minha de criar os anjos sob a forma de gémeos simétricos. É uma chatice! No vosso caso, foi mesmo um desastre: um é todo luz e outro é todo treva; cada qual pretendendo absorver o outro, durante toda a eternidade! Mas sei como remediar o problema: vou criar um Universo e vou encarregar-vos de o gerir. Nenhum de vós o poderá dominar sozinho; ali podereis continuar a vossa luta pelos séculos sem fim.

 

Deus iniciou a obra da Criação. Estendeu a mão e apanhou um pequeno ponto de Céu. Fê-lo explodir com um portentoso Big-Bang e imediatamente se transformou num incomensurável Universo. Porém, não tinha forma nem medida; não passava de um incalculável campo de energia bruta.

Então, disse Deus aos arcanjos desavindos:

– Eis que criei o Universo e o entrego nas vossas mãos. Vou vigiar a vossa atuação: se quiserdes ter sucesso, nenhum poderá eliminar o outro. No momento em que um de vós se extinguir, o Universo colapsa.

Disse Deus: – Haja luz! – A disputa começou. Ambos os arcanjos se inseriram no Universo. Miguel lançou as forças de atração, mas Lúcifer atacou com as forças de repulsão. Lentamente, as energias começaram a condensar-se, formaram-se núcleos de matéria e a luz apareceu.

Disse Deus: – Que a luz de Miguel se chame dia e a treva de Lúcifer noite. – Assim se fez e Deus viu que a luz era boa. Veio a tarde e veio a manhã; assim se completou o primeiro dia.

 

Miguel começou a reunir os núcleos de matéria e formou grandes nuvens de gases. Com a sua força de atração, começou a criar aglomerados cada vez maiores. E pensou: “Em breve, vou condensar todo o Universo num ponto só e aí dominarei!”. Então, veio Lúcifer com a sua força de repulsão e espalhou os aglomerados por todos os espaços do Universo.

O Espírito de Deus pairava sobre o Universo e controlava a obra dos Seus anjos. Então fez um firmamento e disse: – Aos aglomerados chamarei Galáxias e orbitarão afastadas umas das outras. Quem as observar, verá somente pontos no firmamento. – Ao firmamento Deus chamou Céu. Veio a tarde e veio a manhã; foi o segundo dia.

 

Os gases começaram a condensar-se em corpos cada vez mais sólidos que, mercê das forças lançadas no Universo, orbitavam entre si, de uma forma a que, mais tarde, se veio a chamar “gravitação universal”.

Disse Deus: – Que as águas sejam reunidas num único lugar e emerja a terra firme. – Assim se fez e Deus chamou Oceano à reunião das águas e Continente à terra emersa. E Deus viu que era bom.

Miguel pensou que a terra podia tornar-se mais luminosa. Plantou ervas e plantas de várias espécies que, dentro em breve, a cobriram de um manto verde, de flores belas e cheirosas e frutos multicolores. E Deus viu que era bom. Mas Lúcifer não podia permitir tanta luz e encarregou-se de mandar geadas, granizo e trovoadas. Veio a tarde e veio a manhã; foi o terceiro dia.

 

Então Deus, no seu infinito amor, começou a ganhar afeto à Criação. Escolheu um planeta e disse: – Vamos fazer deste planeta um jardim! – Miguel colocou um luzeiro no firmamento do céu para presidir ao dia. Lúcifer colocou outro para presidir à noite. O planeta cobriu-se de vegetação luxuriante e envolveu-se numa camada gasosa que lhe davam um aspeto agradável. Deus, que continuava a pairar sobre o firmamento, viu e disse: – Que lindo “planeta azul”! – Veio a tarde e veio a manhã; foi o quarto dia.

 

 A atmosfera tornou-se capaz de albergar todo o tipo de vida. Então, Miguel encheu os oceanos de cetáceos e outros animais nadantes de belas cores, que se alimentavam de algas e outros vegetais. Todos viviam em perfeita harmonia, até ao dia em que Lúcifer criou tubarões, orcas e outros carnívoros, que dizimavam as outras espécies, mas criaram um equilíbrio ecológico nos mares. Miguel encheu os céus de animais alados, das mais variadas espécies, tamanhos e coloridos, que se alimentavam de sementes e insetos. Lúcifer, mais uma vez, veio provocar o equilíbrio com águias, falcões, corujas e outras aves carnívoras, que comiam os primeiros. Deus viu que era bom. Abençoou-os e disse: – Reproduzi-vos e multiplicai-vos e enchei os mares e que as aves se multipliquem na terra. – Veio a tarde e veio a manhã; foi o quinto dia.

 

Deus passou mais uma vez sobre o firmamento e repreendeu os seus anjos, que se tinham deitado a descansar, embevecidos com a maravilha da Criação: – Como a descansar?!… A Criação não está terminada! Não vejo répteis, nem mamíferos?! – Então Miguel encheu a terra de animais herbívoros e Lúcifer de carnívoros. Miguel criou animais dóceis e Lúcifer criou animais violentos. Criaram-nos de todas as espécies e tamanhos.  E Deus viu que era bom.

 

O sexto dia estava a findar. O “planeta azul” estava povoado, o paraíso estava preparado. Mas Deus não se sentia feliz, porque faltava algo de sublime. Então teve uma ideia: “Façamos o homem à nossa semelhança, qual nossa imagem. Ele será inteligente e governará a terra, com todos os animais e plantas que criei”.

Pegou no ser mais evoluído que havia à face da terra, soprou-lhe o Seu alento e abriu-lhe a inteligência. Macho e fêmea os criou. E disse Deus:

– Reproduzi-vos e multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a. Mandai nos peixes do mar, nas aves do céu, nos animais domésticos, nos animais selvagens e nos répteis que se rojam sobre a terra.  – E disse também: – Dou-vos domínio sobre as plantas, para que vos sirvam de alimento. Duma só coisa vos proíbo: comerem os frutos da árvore do Bem e do Mal, porque, no dia em que o fizerdes, morrereis. – Assim se fez. E Deus viu que tudo o que havia feito era bom. Veio a tarde e veio a manhã; foi o sexto dia.

 

Deus estava muito contente com a obra da Criação e, no sétimo dia, descansou. Por tal motivo, esse dia é consagrado ao Senhor.

 

O homem vivia no Paraíso com a sua mulher, à qual deu o nome de Eva. Comiam frutos, amavam-se e dormiam. Mas nunca tocavam nos frutos da árvore do Bem e do Mal. Lúcifer sabia que a mulher era menos racional e mais ambiciosa do que o homem e, um dia, perguntou-lhe:

– Eva, sabias que Deus vos enganou, quando vos proibiu de comer os frutos daquela árvore?! – Eva ficou intrigada. Lúcifer continuou: – Deus proibiu-vos, porque sabe que, no dia em que comerdes dos frutos daquela árvore, abrir-se-vos-ão os olhos e ficareis como deuses.

Eva foi ter com Adão, o marido, que estava à beira do regato a gozar o fresco, e contou-lhe o que tinha acontecido. Adão ouviu, coçou a cabeça e sentenciou: – Não preciso de ser deus para nada. Estou bem como estou. – E continuou a chapinhar na água.

Desde esse dia, Eva passava todo o seu tempo a olhar para os frutos da árvore do Bem e do Mal. Como pareciam apetitosos! “Já viram como o meu status subiria, se fosse a mulher de deus?”, pensava. Um dia, não resistiu. Colheu um dos frutos e deu-lhe uma dentada. Era doce e muito saboroso. E, melhor que tudo, não morreu por tê-lo comido. Correu para junto de Adão, que estava à sombra de uma árvore a dormir a sesta e gritou, entusiasmada: – Adão, Adão, já provei um dos frutos da árvore que Deus nos proibiu de comer. É muito bem e, como vês, não morri. Prova tu também!

Adão acordou estremunhado e não estava a perceber bem o que Eva lhe dizia. “Prova! Prova!”, dizia ela toda excitada, “Prova!” Adão tinha sono e não lhe apetecia aturar as criancices da mulher.  Para ela se calar, comeu o que lhe oferecia, fosse lá o que fosse. Então, abriram-se-lhe os olhos e viu o que nunca tinha visto: Eva tinha um brutal par de tetas, lábios como cerejas, cabelos de sereia e umas curvas de despistar um homem!

Adão perdeu a cabeça e gritava: – Eva, tu és uma deusa! Anda comigo, que eu levo-te ao céu!

 

O homem começou a reproduzir-se a espalhar-se pelos continentes. Comia frutos da terra e domesticava animais para o servirem. Então Miguel pensou que o homem era demasiado poderoso para viver em liberdade e convocou os seus anjos para cada um acompanhar um ser humano e o guiar para os caminhos da luz. Mas Lúcifer estava atento e não podia permitir tal domínio e convocou os seus anjos para cada um acompanhar um ser humano e o guiar para os caminhos das trevas. Assim, cada criança passou a nascer com um espírito de contradição dentro de si: sente o dever de caminhar para a luz, mas tem uma atração, por vezes irresistível, de caminhar para as trevas.

O homem continuou a multiplicar-se e a espalhar-se de tal modo pelo mundo, que a multidão dos anjos começou a ser insuficiente para animar tanta gente. Duas são as preocupações de Deus: os céus estão a ficar vazios e muitas crianças são possuídas por anjos de qualidade inferior. Passaram a nascer crianças com tendência marcada para a luz, enquanto outras nasciam com tendência marcada para as trevas.

 

Foi então que Lúcifer criou o Inferno, o reino das trevas, onde passou a dar formação aos seus anjos, antes de os lançar na terra, o que teve como consequência uma maior propensão dos novos seres humanos para as obras das trevas. Ao princípio, Deus não se deu conta do artifício. Mas começaram a ser frequentes certas atitudes que até então tinham sido residuais: homens que agrediam e matavam outros homens por desavenças de pouca monta; homens sem fome que matavam animais por simples prazer; homens que lançavam fogos deliberadamente, com o intuito de destruir propriedade alheia. Deus começou a sentir alguma preocupação.

 

A certa altura, os homens começaram a ser dominados pela ganância e tomaram atitudes intoleráveis: nações inteiras eram dizimadas por exércitos de outras nações; homens dominavam e exploravam outros homens a quem chamavam escravos, que tratavam como animais; homens que se autoproclamavam “imperadores” e subjugavam o seu povo e os povos vizinhos. Miguel tentou pressionar os seus anjos que atuavam junto dos malfeitores, para que os trouxessem para os caminhos da luz, mas eles revelaram-se fracos e desmotivados. Os anjos das trevas, em contrapartida, eram fortes, pró-ativos e a sua motivação estava em alta. Não havia nada a fazer!…

Miguel foi queixar-se a Deus:

– Senhor, Lúcifer não está a cumprir o contratado e faz tudo para provocar o desequilíbrio a seu favor. Os seus anjos usam trapaças e mentiras para enganar os homens. Além disso, são muito mais fortes do que os meus anjos e frequentam ações de formação, que não tenho condições económicas de proporcionar aos meus.

Deus preocupou-se:

– Outra coisa não seria de esperar dos filhos das trevas… Mas vamos tomar algumas medidas para reduzir a sua influência junto dos homens.

Então, Deus desencadeou terramotos, vulcões, tempestades, maremotos e outros cataclismos, que amedrontaram os homens e os tornaram mais tementes a Deus. Os homens inventaram muitas religiões, construíram templos, desenvolveram castas de sacerdotes e sacrificaram pessoas e animais para aplacar a fúria dos elementos. Mas tal não impediu que continuassem a dar mais ouvidos aos anjos das trevas do que aos anjos da luz.

 

Miguel sofria e Lúcifer exultava. Deus pairava sobre as nuvens e via que o desequilíbrio era cada vez maior. Então, tomou uma decisão digna de Deus: Ele próprio viria falar aos homens! Se não ouviam os anjos da luz, não deixariam de ouvir o próprio Deus e arrepender-se de se terem desviado dos caminhos do equilíbrio.

Escolheu uma mulher jovem, virgem e equilibrada. Fundiu dois óvulos dentro do seu ovário e encaminhou o ovo resultante para o útero. Esperou a nidação e, nesse momento, ocupou o novo ser com uma parcela do seu ânimo. Deus, na sua omnipresença, estava nos céus e nessa criança. A criança nasceu, cresceu e tornou-se num profeta como o mundo nunca tinha visto: fez milagres portentosos, pregou o amor aos pobres, avisou os ricos e poderosos de que, se não se arrependessem, iriam, fatalmente, ser precipitados no Inferno e deixou no mundo uma congregação de discípulos, com a missão de continuar a propagação do Reino de Deus.

 

Mas os anjos das trevas continuaram a ser mais fortes que os anjos da luz e Lúcifer continuou a sua obra: dividiu os homens em classes; uma classe com um número reduzido de elementos autointitulou-se de “nobre”, declarou-se dona da terra e senhora de todos os outros homens, a que chamou “povo”; os discípulos do pregador constituíram uma classe à parte, a que chamaram “clero”. O clero devia promover o equilíbrio, mas quase sempre tomava o partido dos nobres. Alguns anjos das trevas segredaram aos seus possuídos: “Tu podias ser o nobre dos nobres e ficavas tão poderoso como Deus”. Estes sujeitaram os seus pares à sua autoridade e autointitularam-se “reis” uns, “imperadores”, “czares” ou “sobas” outros.

 

Então, Lúcifer pensou: “Vou tornar a coisa irreversível. Agora é que Miguel vai perder de vez”. Convocou os seus anjos mais fortes e leais e fez-lhes uma nova ação de formação: “Vou mostrar-vos como deveis proceder para que os vossos possuídos dominem toda a terra”. Ensinou-os a fazer fábricas, criar linhas de montagem, impor horários de trabalho escravizantes, desenvolver máquinas que fazem o trabalho de muitos operários e assinar contratos a prazo. Ensinou-os também a extrair da terra os recursos não renováveis e a queimá-los para conseguir energia barata; a utilizar herbicidas, inseticidas, pesticidas, hormonas e transgénicos, para conseguir alimentos mais apetitosos e lucrativos; a fabricar comboios, camiões, aviões, petroleiros e outros meios para transportar as mercadorias até ao consumidor.

Eles vieram para o terreno altamente motivados. Aplicaram tudo o que tinham aprendido e foram criativos: ensinaram os seus possuídos a fixar preços artificiais para terem grandes lucros, a inventar crises para justificar despedimentos em massa e a provocar boatos para fazer subir a cotação das suas ações na Bolsa.

 

A atmosfera, a terra, a água e o mar ficaram cada vez mais poluídos; o clima alterou-se; a temperatura subiu; os glaciares derreteram; as tempestades varreram as cidades; os incêndios destruíram as plantações. As plantas e os animais morreram; o Homem desapareceu da face da terra. O Universo implodiu.

 

Mas a luz e as trevas continuaram inconciliáveis. Miguel diluiu-se na brilhante claridade dos Céus. Lúcifer diluiu-se na obscura treva dos Infernos.

Os coros dos anjos continuaram eternamente a proclamar bem alto as glórias de Deus.

 

E Deus arrependeu-se de ter criado o Universo.

 

(C) Sebastião Barata, 2022.

 

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