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Comentário ao livro “Auto de Fé” de Elias Canetti

Elias Canetti é um escritor nascido na Bulgária, descendente de uma família de judeus sefarditas que fugiu do sul de Espanha por alturas da perseguição aos judeus no tempo da Inquisição. Canetti viveu em vários países durante a sua infância e juventude e, quando a guerra mundial começou em 1939, refugiou-se na Inglaterra, onde residiu até aos finais da década de 1970, tendo adquirido a nacionalidade britânica. Mas, como viveu a infância e juventude em países de língua alemã e ali fez os seus estudos, toda a sua obra foi escrita em alemão.

A sua obra é constituída essencialmente por ensaios, sendo as “massas” o seu tema de estudo. O livro mais famoso chama-se mesmo “Massa e Poder”, no qual desenvolve a ideia de que a nossa vida, os nossos atos, a nossa própria psicologia são o produto da “massa” em que crescemos e vivemos integrados. O poder reside na capacidade de moldar as pessoas aos interesses de quem domina a massa. Quem não se integrar na massa é rejeitado, considerado dissidente ou, no mínimo, louco e é segregado ou, eventualmente, morto. É esse medo da morte (social ou até física) que leva as pessoas a integrar-se, a negar-se a si próprias, a moldar a sua personalidade à personalidade da massa.

 

Sempre assim foi desde o início dos tempos e assim continua a ser. As religiões são movimentos de massa, com os seus mitos, os seus dogmas, os seus santos-modelo, os seus símbolos e os seus rituais. O mesmo acontece com os governos e as ideologias políticas. Canetti chama ao Estado a “Religião do Poder”, pois também tem os seus símbolos, as suas leis, os seus heróis-modelo, a sua hierarquia, exatamente como as religiões. Os clubes desportivos são outro exemplo de movimentos de massa.

Se falei de tudo isso, foi para introduzir o comentário a este livro, que é o único romance escrito por Elias Canetti. Na verdade, é esta teoria da massa que conduz a história do início ao fim. Todos os personagens lutam por defender as suas ideias, os seus gostos pessoais, a sua vontade, mas acabam por agir em função do que é aceite ou recusado pelo seu meio social. Quem não consegue integrar-se é considerado louco, deficiente ou anormal e é segregado, acabando por se suicidar ou ser eliminado fisicamente. No meio da massa, as pessoas ficam alienadas e tomam atitudes que nunca tomariam, se agissem sozinhas. Veja-se o que acontece, por exemplo, nas manifestações de rua ou nos jogos de futebol. Cidadãos pacatos, reconhecidos como pessoas calmas e educadas, tornam-se vândalos, arruaceiros, violentos e, por vezes, assassinos.

A personagem principal é Peter Kien, apaixonado por livros, que gasta a fortuna que lhe foi deixada pelo pai na aquisição de livros raros e possui uma gigantesca e valiosa biblioteca. É também um eminente sinólogo, profundo conhecedor da cultura e língua chinesa, mas também versado noutras culturas, desde a época clássica à atualidade. Vive para os seus livros e não consegue manter um relacionamento social. Mas a sociedade não o vai deixar em paz e acaba por ter de estabelecer contacto com vários tipos de pessoas, todas elas com uma forma diferente de estar na vida. É explorado, maltratado, violentado, abusado de todas as formas possíveis e acaba por sucumbir perante as exigências duma vida em sociedade, para a qual não estava preparado, nem se coadunava com a sua personalidade.

No final do livro, está um apêndice que reproduz um pequeno ensaio retirado do livro “A Consciência das Palavras”, onde o autor explica como nasceu e se desenvolveu o “Auto de Fé”. A ideia era escrever um conjunto de oito romances, cada um “em volta de uma figura à beira da loucura”. Diz o autor: “Entre elas havia um fanático religioso, um sonhador técnico que vivia apenas a fazer planos cósmicos, um colecionador, um possesso pela verdade, um esbanjador, um inimigo da morte e, por último, também um autêntico «homem-livro»”. Afinal, acabou por só completar e publicar este último.

É uma história um pouco triste, que não acaba bem. Mas sendo a intenção do autor mostrar o cinismo da nossa sociedade, a falsidade quase sempre subjacente aos nossos atos, a artificialidade que domina a sociedade onde nos movemos e a opressão que esta impõe à nossa personalidade, não podia acabar doutra forma.

Um bom exemplo é a passagem da história em que aparece Georg, irmão de Peter Kien, que é psiquiatra e dirige um hospital de loucos em Paris. Na conversa que mantém com o irmão, defende que loucos são os que não estão no manicómio. E a explicação é simples: todos procuramos desempenhar muitos papeis na vida, conforme as circunstâncias e os interesses do momento; os loucos, pelo contrário, são coerentes e desempenham um só papel. Normalmente, é um papel que a sociedade não aceita, como, por exemplo, ser Deus, ou um anjo, ou um político ilustre, por vezes um animal, um vegetal ou até um mineral. Por isso, a sociedade os segrega e esconde. Mas esse é o seu papel único e autêntico, enquanto nós cá fora procuramos ser tudo e todos, menos nós próprios.

Um livro que vale muito a pena ler. O meu exemplar é de uma edição muito antiga, mas está no mercado uma edição recente da Cavalo de Ferro. É um livro grande que não é barato, mas o prazer que a sua leitura proporciona compensa o preço.

 

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