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Comentário ao livro “O ADEUS ÀS ARMAS” de Ernest Hemingway

Muito se tem escrito sobre as duas grandes guerras do século XX. Foram dois conflitos que mudaram não só a face da Europa, mas também de todo o mundo. Este livro foi escrito cerca de dez anos depois do término da Primeira Grande Guerra, por um autor que viveu o conflito por dentro. Aliás, a história tem muito de autobiográfico. Tal como o protagonista, um americano alistado nas tropas italianas, Hemingway foi condutor de ambulâncias durante a Guerra, se apaixonou por uma enfermeira em Itália e foi atingido por uma bomba e ferido com gravidade.

 

Talvez por isso, o romance está escrito com um realismo difícil de ultrapassar. Assistimos a um conflito entre pessoas que não passam de peões nas mãos de governos que nunca são referidos. O que o autor nos conta são as vidas e as mortes dos soldados comuns que se cruzam com o protagonista Frederic Henry no seu dia a dia, durante o conflito local entre italianos e austríacos. A evolução do conflito, com os avanços, os recuos, as trincheiras, o troar dos canhões, as bombas que ferem e matam, as pilhagens, as doenças e as pestes são narrados de uma forma desapiedada, quase diria embriagada ou drogada.

A este propósito, cito o final do 1º capítulo que bem ilustra esta sensação de embotamento dos sentidos, de desvalorização da vida humana causada pela guerra: “Quando começou o inverno, a chuva tornou-se permanente, e com a chuva veio a cólera. Mas foi dominada, e só matou sete mil homens do exército.“

Neste ambiente de carne para canhão, só restava aos envolvidos procurar o apoio dos que estavam à sua volta e eram seus companheiros de infortúnio. A lealdade ao amigo, a camaradagem, o sacrifício pelo próximo e os frequentes riscos de vida para proteger o companheiro do nosso lado são muito bem descritos nesta excelente obra literária que bem merece as elogiosas referências que lhe têm sido tecidas ao longo das décadas, desde que foi publicada em 1929.

Nestas circunstâncias, um amor amadurecido é bastante improvável. O habitual são relacionamentos precários que, mal começam, rapidamente acabam, fruto de uma morte, de um estropiamento, de uma transferência, de um regresso à vida civil. Não foi o caso da história de amor aqui narrada na primeira pessoa. De facto, começou como um amor de guerra, mas evoluiu para um sentimento profundo que, no entanto, acabou como tudo na vida de Hemingway: de uma forma irreversível, inesperada e angustiante. Para quê tanto sacrifício?…

Narrado de uma forma simples, mas também profunda, sem avanços ou recuos, muito ao jeito de diário, é fácil de ler e prende a atenção do leitor.

 

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