
Comentário ao livro “SANTA MISÉRIA” de Frans Eemil Sillanpää
Desde que comecei a fazer vídeos para divulgar no YouTube a vida e a obra dos escritores que foram galardoados com o Prémio Nobel de Literatura, consolidei a convicção que já tinha de que todos os escritores vertem nas suas obras algo da sua vida, por pouco que seja. A experiência de vida de cada um de nós, de modo especial a nossa infância e juventude, vão ter um grande papel na nossa atividade profissional, familiar e social. Assim, todos os escritores colocam sempre algo de si nas suas personagens, nas tramas que inventam e nos cenários das suas obras de ficção. Foi o que aconteceu com Frans Sillanpää neste livro.
Jussi, o protagonista da história, foi inspirado na infância do autor. Na investigação que fiz sobre a vida de Sillanpää para a feitura do vídeo, soube que era filho de um casal de camponeses pobres, que foi criado numa cabana e que, só por uma questão de sorte, aliada à sua grande capacidade intelectual, conseguiu sair da miséria que viveu na casa dos seus pais. Foi por causa dessa miséria que todos os seus irmãos morreram e só ele sobreviveu. As crianças morriam de subnutrição, de frio ou de doença, porque estavam longe de tudo e a família não tinha condições para os levar ao médico e adquirir medicamentos. Também a sua mãe morreu nova por falta de dinheiro e condições para tratar da saúde. Poucas eram as mulheres que chegavam à velhice, porque morriam de parto, de doença ou de maus tratos.
Para se compreender melhor a “Santa Miséria” em que se inspira o título do livro, desejo explicar um pouco como era a organização social e económica da Finlândia naquela época. Havia quatro classes sociais: o clero, a nobreza, a burguesia e os agricultores. Mas a classe dos agricultores que elegiam e eram eleitos para o Parlamento, era constituída pelos proprietários das terras. Estes viviam numa bela mansão e utilizavam em seu proveito uma multidão de miseráveis sem quaisquer direitos, nem bens, nem possibilidade de sair dessa situação. O dono da terra cedia a cada um uma pequena parcela, no geral das mais afastadas, menos produtivas e mais insalubres, onde ele podia construir uma cabana com madeira da floresta, viver com a sua família e tentar produzir o necessário para sobreviver. Mas tinha de pagar uma espécie de renda que consistia em dias de trabalho para o proprietário, pessoalmente, com as suas ferramentas e os seus animais de trabalho. O trabalho para o senhor tinha toda a prioridade, tendo de ser feito na altura mais adequada para cada tarefa agrícola. Assim, o cultivo da parcela onde habitava ficava para segundo plano e acabava por produzir muito pouco. O pai de Sillanpää era um desses miseráveis camponeses.
O protagonista Jussi é inspirado nesses pobres camponeses, sendo o retrato fiel do pai do autor e de outros como ele. Outro aspeto importante para se compreender o livro é que estes pobres não tinham nome de família. No batismo só recebiam um nome próprio e adotavam como sobrenome o nome da propriedade a que estavam ligados. Foi assim que Jussi teve ao longo da vida diversos nomes, consoante a propriedade para a qual trabalhou. O próprio nome próprio podia ser adaptado ao dialeto. Foi assim que Jussi, foi também conhecido como Juhá ou Janne e teve sucessivamente os apelidos de Nikkila, Tuorila e Toivolá, sendo Jussi Toivolá quando foi fuzilado, acusado como revolucionário “vermelho” e agitador, depois de esmagada pelos “brancos” a rebelião que procurou pôr fim a esta situação de desigualdade gritante na sociedade finlandesa, influenciada pela revolução soviética na vizinha Rússia.
Não acabei de revelar nada de especial, porque é assim que o livro começa, ou seja pelo fim da vida no herói. Depois, em cada um dos capítulos, vai narrando a sua vida desde que nasceu como filho de um proprietário que perdeu as suas terras por má gestão e alcoolismo, e deixou a família na miséria. A viúva e o filho Jussi foram rejeitados por outros familiares também proprietários e ele acabou como mais um camponês explorado. Um proprietário cedeu-lhe uma parcela de terreno, onde ele constituiu família e viveu, sonhando com o tempo em que os seus antepassados eram proprietários e aspirando voltar a esse tempo.
Há um seu filho que vai para a cidade em busca de uma vida melhor e aí toma contacto com o socialismo e se torna um jovem militante da luta pelo fim da exploração dos camponeses pobres, que facilmente considero inspirado no próprio Sillanpää. É ele que vai transportar essas ideias para o campo e levar o seu pai e outros como ele à revolta, à inevitável derrota e à morte.
Este livro é o tipo de história que pode não agradar a alguns leitores pela sua crueza e ser uma história muito triste. Mas é um testemunho vibrante da situação de exploração do homem pelo homem que se vivia naquela sociedade, e onde vemos retratado muito do que ainda hoje enferma a nossa sociedade. Apesar de toda a evolução, das leis de proteção dos direitos humanos, das leis dos direitos das crianças, do avanço da luta pela igualdade do homem e da mulher, da democracia, dos direitos sindicais, da segurança social e dos serviços de saúde, muita exploração e muita miséria ainda existe. Continuam a existir os muito ricos e os muito pobres; diria que até estamos a piorar neste capítulo.
Por todas estas razões, vale a pena ler este livro que é um testemunho vibrante e vivido na primeira pessoa pelo autor, porque também ele nasceu e cresceu numa cabana da floresta, viu os seus pais e irmãos morrer na miséria e dedicou a sua vida a lutar por uma sociedade mais justa e igualitária.
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