
A Bruxa da Cartuxa
Manelinha andava no oitavo ano e era uma boa aluna, especialmente a português. A leitura era o seu passatempo favorito e devorava tudo o que passava sob os seus olhos. Mas o que mais apreciava eram as histórias de arrepiar. Gostava muito de romances policiais, especialmente os que envolviam crimes de sangue. As histórias de bruxas, fantasmas, vampiros e lobisomens encantavam-na. Devorou todos os livros da Agatha Christie e não descansou, enquanto não leu a “Guerra dos Mundos”, “O Exorcista” e “Drácula”.
Manelinha tinha o seu grupo de amigos, que lhe achavam muita piada, mas já andavam fartos de a ouvir, porque só falava de fantasmas e vampiros. Chamavam-lhe a “Bruxa da Cartuxa”. O João e a Júlia, seus colegas de turma desde o primeiro ano da escola primária, tentavam defendê-la, mas também já andavam fartos de a ouvir falar sempre do mesmo assunto.
Os pais ofereceram-lhe um computador como prenda pelos seus catorze anos. Desde então, passou a pesquisar na net tudo o que encontrava sobre aqueles temas. Pouco tempo depois, orgulhava-se da enorme coleção de imagens, vídeos e textos sobre bruxas, fantasmas, vampiros e lobisomens que já possuía. A sua obsessão era tão grande, que os seus amigos começaram a temer pela sua sanidade mental.
Certo dia, apareceu na escola muito preocupada, porque lhe tinham roubado o livro do Drácula. No dia seguinte, vinha muito pálida, a dizer que tinha recebido por e-mail uma imagem dela própria a ser mordida pelo conde Drácula. Júlia tentou consolá-la, dizendo-lhe que podia ser uma partida de algum colega, que não ligasse. No terceiro dia, vinha horrorizada, porque durante toda a noite, ouviu a música do filme “Drácula” de Francis Ford Coppola, mas não conseguiu saber de onde vinha. Então, Júlia disse-lhe que não acreditava nisso, que estava a ficar aterrorizada sem motivo e prontificou-se para ir dormir com ela na noite seguinte, para lhe provar que era tudo imaginação dela. Assim fizeram.
A meio da noite, exatamente quando o relógio da sala batia as doze badaladas, o quarto começou a ficar inundado de uma luz azul, cada vez mais intensa. Sobre a cama, passou um vulto, vindo do lado da janela, que aterrou aos pés da cama. Esconderam a cabeça debaixo dos cobertores, cheias de medo. Então, ouviu-se uma voz melodiosa, mesmo ao ouvido delas: “Hoje vou sugar todo o teu sangue e vais ser minha para sempre”. Manelinha deu um grito horrível e ficou como morta. Foi então que Júlia gritou: “Para, João, que ela desmaiou”. Acenderam as luzes e tentaram reanimá-la, mas foi impossível.
No dia seguinte, no hospital, quando Manelinha já estava livre de perigo, os dois amigos vieram visitá-la. Contaram-lhe que tudo o que tinha acontecido era mentira e foi feito por eles, para lhe tirarem a mania dos vampiros e dos fantasmas. O e-mail era uma fotomontagem e o vulto não passava de uma colcha azul, habilmente manuseada pelo João. “Temos muita pena de que estejas a sofrer por causa do que te fizemos. Perdoa-nos.” E juraram que não voltavam a embarcar num jogo tão perigoso. Terá, ao menos, valido a pena?
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