
Comentário ao livro “ÁGUAS PASSADAS” de João Tordo
Este sim é um thriller! Confesso que, neste aspeto, gostei muito mais deste do que de “A noite em que o Verão acabou”. Note-se que aquele é também um grande policial, mas é uma história muito mais soft.
“Águas passadas” apresenta crimes horrorosos, assassinos frios e ferozes, cenas de grande atrocidade e serial killers implacáveis. Desenvolve temas que tocam a sensibilidade dos leitores, como a pornografia infantil, a chantagem e a vingança.
Mas vamos à história, tentando não revelar nada que possa retirar o interesse pela sua leitura. Tudo começa quando aparece o corpo de uma jovem de quinze anos a boiar na praia de Assentiz. Chamada a polícia ao local, a subcomissária da PSP Pilar Benamor verifica que o cadáver não tinha olhos; a autópsia revelará que os olhos tinham sido empurrados para dentro da garganta da jovem assassinada. Dias depois, é encontrado o cadáver de um jovem de dezassete anos encostado a uma árvore no Parque de Monsanto, com um buraco no lugar do coração; este é enviado dentro de um sobrescrito a Pilar Benamor, que já antes tinha recebido outro subscrito com uma folha na qual estava escrito simplesmente “Olhos que não veem”. É fácil a associação dos dois crimes, dado o ditado popular “Olhos que não veem, coração que não sente”.
A investigação prossegue e parece a Pilar muito conveniente que os indícios comecem a apontar para um banqueiro, cujo Banco já tinha sido alvo de dois processos de resgate, onde muitos investidores perderam as suas poupanças. Como é habitual, o caso chega à comunicação social, as televisões fazem do caso primeira página dos telejornais; a polícia segue esta via de investigação e o caso passa para a alçada da Judiciária. Mercê da pressão da opinião pública, será difícil sair daqui, mas Pilar não se conforma e, embora desapossada do processo, continua a investigar por conta própria, acabando por ser crucial para o desenlace final, embora com risco da própria vida.
Pelo meio, há outros ingredientes que vão prender o leitor e provocar contínuas mudanças de sentido à história, nomeadamente uma possível ligação com um caso muito semelhante havido há vinte anos que foi arquivado e o facto de o polícia envolvido nesse caso ser o pai de Pilar. Para além dos traumas que a envolvem, Pilar tem um vício contra o qual luta e tenta ocultar, vício que pode comprometer o seu trabalho e a sua credibilidade. Há também um velho solitário, antigo informador do pai de Pilar e que era o pai da jovem vítima do caso arquivado. Será ele que agora se quer vingar? São muitos ingredientes credíveis que vão apimentar a história.
Como se verifica, estamos perante um livro que tem tudo para ser um sucesso editorial e que vem, se possível ainda mais, vincar a qualidade do autor, como um dos melhores escritores da nova geração portuguesa.
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