
“Nesta mesma noite, entregarás a tua Alma.” (Jesus Cristo, LC. 12, 20).
João Pitágoras nasceu numa pequena Aldeia muito antiga da Beira Baixa. As suas casas eram de granito, pedra abundante na região e os telhados de colmo de centeio. Agora chamam-lhe Aldeia Histórica e está integrada num roteiro de aldeias de pedra. Mas, naquele tempo, a vida era muito difícil. Manuel Pitágoras, pai de João Pitágoras, era pastor e ganhava uns míseros vinte e cinco escudos por mês em dinheiro, para guardar e ordenhar as oitenta ovelhas e quarenta cabras, que compunham o rebanho do patrão. Ganhava também as “comedias”1, como era uso, que a patroa media à sua Maria no final de cada mês.
O que era isto para alimentar cinco filhos? Valia-lhe a pequena horta que o patrão lhe autorizava a fazer, na qual produzia couves, alfaces, feijão e batatas. As duas filhas mais velhas, Maria do Céu com nove anos e Maria do Carmo com sete, guardavam os irmãos mais pequenos, tratavam das galinhas e ajudavam a mãe na horta.
Nenhuma delas foi à escola, porque as mulheres não precisavam de escola para nada. Tinham é que aprender a cozinhar, costurar e tratar bem das hortas, para arranjarem um bom “partido”, quando chegasse a idade de casar.
Um dia, alguém perguntou a Manuel Pitágoras, no intervalo entre dois copos na tasca do tio Zé Borrego, onde é que raio arranjou aquela alcunha. Manuel respondeu que não sabia, porque já o seu pai e o seu avô eram conhecidos por Pitágoras. Então, esse alguém explicou-lhe que Pitágoras foi um sábio de antigamente, de quem ainda hoje se fala.
Desde esse dia, enquanto se apoiava no cajado e olhava o gado, dava consigo a pensar na conversa do outro. “Um sábio, quem diria?!” O seu Joãozito estava agora na idade de começar a ir à escola. “Será que ele poderá vir a ser alguém na vida, já que eu sou um zé-ninguém, que nem uma letra sabe?”, dava consigo a magicar.
Mandou a mulher falar com o mestre-escola e o Joãozinho começou a aprender a ler e a contar. Começou a salientar-se e não tardou a ser o melhor entre os companheiros da turma. Quando chegou à quarta classe, o professor chamou a mãe do João Pitágoras à escola e explicou-lhe que era uma pena o rapaz ficar por ali, atrás de umas ovelhas ou de uma junta de vacas. “Mas nós não temos posses, Senhor Professor”, lamentava-se a mãe. Que não era problema, dizia o professor, porque o rapaz era muito esperto e havia de ter sempre bolsa de estudos. E lá a convenceu.
João Pitágoras estudou muito e, quinze anos depois, licenciou-se em Direito. Na taberna da aldeia, o pai enchia a boca com vinho e as façanhas do seu filho, que era Doutor Advogado.
O Dr. Pitágoras trabalhou bem e soube relacionar-se ainda melhor. Aos trinta e cinco anos era Deputado e aos quarenta Ministro. Manuel Pitágoras, agora com setenta anos, já viúvo, continuava a fazer inveja aos amigos na tasca do tio Zé Borrego.
Por essa altura, o Sr. Ministro, que veio de corrida para se mostrar na romaria da Santa Padroeira lá da terra, disse a Manuel Pitágoras que não queria que ele trabalhasse mais. Estava a ficar muito velho e os filhos estavam todos casados. “O Pai vem comigo para Lisboa”, sentenciou.
Assim se fez. Ao serão, já na Capital, o Sr. Ministro, a esposa e os filhos desejaram-lhe as boas-vindas. “Agora posso descansar, que já tenho quem me governe”, sentenciou o avô Pitágoras, “vai ser só comer e dormir”, acrescentou. “E que seja por muitos anos”, redarguiu o filho.
No dia seguinte, Manuel Pitágoras acordou muito cedo, como era seu costume. Levantou-se, vestiu-se e saiu à rua. Mal pôs um pé fora do passeio, foi atropelado por um autocarro e faleceu.
1 “Comedias” era o pagamento em géneros, geralmente azeite, feijão frade e milho ou centeio para moer e cozer pão.
Deixe um comentário