
Comentário ao livro “SEM DESTINO” de Imre Kertész
“Sem Destino” foi o único livro que Imre Kertész conseguiu publicar no seu país, a Hungria, mas só em 1975, depois de vários anos de recusa pelo regime comunista e debaixo de um silêncio ensurdecedor. Kértesz acabou por se mudar para a Alemanha, onde continuou a publicar e a sua obra começou realmente a ser conhecida.
Mas o que terá provocado tal oposição a um livro que era uma denúncia do regime nazi que a URSS ajudara a derrotar? Provavelmente viram nesta denúncia um retrato muito semelhante ao que se passava na época nos campos de trabalho conhecidos por Gulags, para onde eram enviados os opositores ao regime soviético. Ou, pelo contrário, consideraram-no mais um louvor do que uma crítica ao holocausto? Vejamos porquê.
Imre Kertész nasceu numa família judia em 1929, tendo crescido na Hungria em simultâneo com a ascensão do regime nazi na Alemanha. Aos 11 anos, em plena Segunda Guerra Mundial, a Hungria tornou-se aliada da Alemanha e uma das consequências imediatas foi Kertész e os seus colegas de escola que eram judeus serem colocados numa turma especial reservada a crianças judias. Aos 15 anos, foi deportado, juntamente com outros judeus húngaros, e enviado para o campo de concentração de Auschwitz, de onde transitou para o campo de Buchenwald. Salvou-se de ser imediatamente exterminado nos crematórios, porque declarou que tinha 16 anos, a idade mínima para trabalhar. No fim da guerra, regressou à Hungria e, depois de concluir os estudos, começou a trabalhar como jornalista e a fazer traduções. Mas, em 1951, foi demitido do jornal onde trabalhava, por este se ter ligado ao Partido Comunista, ao qual Kertész não quis aderir. Valeram-lhe as traduções e os trabalhos que ia fazendo como jornalista independente, enquanto escrevia os seus primeiros romances que, como vimos, não conseguia publicar.
“Sem Destino” é bastante autobiográfico, embora o autor sempre se tenha oposto a tal classificação, mas as semelhanças são tais que é difícil separar a história do autor da história do protagonista do romance. Uma coisa é certa: esta é, provavelmente, uma das obras mais antigas e fiáveis sobre o holocausto. Atualmente, o tema “Auschwitz” virou moda, mas naquele tempo pouco mais havia do que o “Diário de Anne Frank” e “Última Paragem Auschwitz”, ambos testemunhos reais de sobreviventes.
Se não, vejamos: “Sem Destino” passa-se na Segunda Guerra Mundial e conta a história ficcionada de György Köves, um adolescente de 15 anos, filho de um abastado comerciante judeu de Budapeste. Após o pai ser levado para um campo de trabalho, requisitaram o rapaz e os colegas judeus da sua escola para trabalharem na reparação dos estragos numa refinaria provocados pelos raids da aviação aliada inimiga. Mas foi por breve tempo, porque logo os meteram num comboio com a alegação de que iam trabalhar para uma fábrica de tijolos na Alemanha, onde ganhariam muito bem. Afinal, no fim da viagem estavam em Auschwitz. Como crianças, acreditavam em tudo o que lhes diziam e pensavam que iam mesmo para trabalhar. Mas Köves achou muito estranho que o comboio transportasse pessoas de todas as idades, muitas já idosas. Por isso, também achou compreensível que fosse feita uma inspeção a todas as pessoas que chegavam e os separassem em dois grupos: os velhos e as crianças iam para um lado e os mais fortes e aptos para trabalhar para o outro. Alertado por outro miúdo que lhe disse que só davam trabalho a quem tivesse mais de 15 anos, quando lhe perguntaram a idade, declarou que tinha 16 anos e foi isso que lhe valeu não ser incluído no grupo dos que se destinavam aos fornos de cremação. Passou cerca de um ano em vários campos de trabalho, onde aprendeu como sobreviver nas piores condições e acabou por ser libertado quando chegaram os ingleses. Regressou à Hungria, mas encontrou tudo mudado, soube que o pai tinha morrido no campo de concentração e só lhe restava a mãe, mas ficamos sem saber se a conseguiu encontrar. É quase a vida do autor, feita a papel químico.
O mais interessante deste romance é ser narrado pela boca de uma criança, que viu tudo sob o seu olhar inocente. Na verdade, não chegou a perceber bem onde esteve, qual era a principal finalidade destes campos e aceitava as explicações que lhe davam, como, por exemplo, que aqueles edifícios com altas chaminés de onde saía um fumo negro e que cheirava muito mal eram para cremar as pessoas que morriam. Sempre se considerou bem tratado e admirava a extraordinária organização do campo, com as contínuas contagens dos trabalhadores e a constante vigilância de guardas armados, o que julgava perfeitamente natural.
György Köves achava que se podia encontrar a felicidade em todas as situações. Até nos campos de concentração, apesar do muito sofrimento. Não há nada a que o ser humano não seja capaz de se adaptar. O que é preciso é que aconteça uma coisa de cada vez. Impossível de suportar seria todo o sofrimento vir ao mesmo tempo. E termina assim: “Toda a gente me pergunta só pelas vicissitudes, pelos «horrores»: todavia, no que me diz respeito, é talvez essa a experiência mais memorável. Sim, é disso, da felicidade dos campos de concentração, que eu lhes falarei da próxima vez, quando me perguntarem.”
Diz a sinopse que «’Sem Destino’ é considerado um dos melhores romances jamais escritos sobre o holocausto e uma das melhores obras europeias da segunda metade do século XX, precisamente porque, sem recorrer a um tom moralizante, nos oferece a perspetiva do espanto, até certo ponto do fascínio de um jovem, perante a extraordinária mobilização e organização dos campos». Talvez esteja aqui a razão da animosidade do regime comunista para com o livro.
Resta acrescentar que este livro foi seguido por outros dois, formando uma trilogia. A forma como “Sem Destino” foi tratado pelo regime comunista da Hungria foi descrita pelo autor em “A Recusa”; a trilogia termina com “Kaddish para uma criança que não vai nascer”, um livro onde György Köves, já adulto, reza o seu kaddish pela criança que ele se recusa a gerar num mundo que permitiu a existência de Auschwitz. Kaddish é a oração judaica pelos mortos.
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