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Comentário ao livro “O AMOR DE MÍTIA” de Ivan Búnin

Quanto Búnin era jovem, apaixonou-se por uma moça que o deixou cerca de três anos depois, por não aguentar o seu modo vida, pois Búnin nunca teve uma casa sua, vivia sempre em casas de amigos e familiares ou arrendadas e passava o tempo a viajar. Este acontecimento deixou-o muito abalado, ao ponto de a família recear pela sua própria vida. E foi esta experiência que mais tarde, quando já vivia em França, lhe inspirou a escrita de “O Amor de Mítia”. É por isso que dizem que esta novela é a sua obra mais autobiográfica.

Deixo umas breves informações para percebermos melhor esta colagem à história de vida de Ivan Búnin. Era oriundo de uma família tradicional de ricos agricultores que acabaram na miséria, por má orientação tanto do seu avô como do seu pai. Por falta de dinheiro, teve de interromper os estudos universitários e regressar à sua aldeia natal na Rússia Central na zona de Oriol, muito longe de Moscovo e ainda muito mais de São Petersburgo, o grande centro cultural da Rússia dos Czares. Sem vocação para a vida no campo, começou a ler os clássicos russos, incentivado por um irmão mais velho, e ganhou o gosto pela escrita. Mais tarde, este irmão recebeu-o na sua casa em Kharkov (na atual Ucrânia), onde conseguiu fazer o curso superior enquanto trabalhava. Começou a escrever e tornou-se conhecido. Quando começou a revolução popular em 1905, ele nunca a apoiou, por achar que conhecia bem o povo russo e julgava-o incapaz de tomar decisões, tendo passado a descrever os camponeses em tons agrestes e retratando-os como pessoas ignorantes e violentas. Após a vitória dos bolcheviques e a implantação do regime comunista em 1917, refugiou-se em França, onde viveu até ao fim da vida. Mas a comunidade russa em Paris era muito numerosa e nunca sentiu necessidade de aprender francês, pelo que falou e escreveu em russo até morrer.

 

Voltando ao livro, Mítia era um rapaz da província que foi para Moscovo tirar o seu curso superior. Ali perdeu-se de amores por Kátia, apesar das grandes diferenças que havia entre eles. Ele era um provinciano tímido, sem maldade, incapaz de maltratar uma mulher e sem prática de namoro. Ela, pelo contrário, era uma citadina, vivaça, sabida e, pior que tudo, com o sonho de vir a ser uma grande atriz. O namoro começou em dezembro e correu bem até à Páscoa, com ele a fazer o esforço de a acompanhar à Escola de Artes, aos concertos, saraus e às receções na casa da mãe dela que duravam até às tantas. Fingia que não via os avanços dos homens que se movimentavam naqueles meios, até que, no início da primavera, Kátia fez o seu exame de curso e foi muito elogiada pelo diretor da escola que se mostrou pronto para fazer dela uma grande estrela. Este tinha fama de levar todos os anos uma jovem atriz de férias com ele para lugares exóticos.

Depois de acabar o curso de artes, Mítia começou a senti-la diferente, numas ocasiões um pouco desligada, mas noutras com sinais de continuar muito apaixonada, o que o deixava confuso e receoso. Certo dia, Kátia disse-lhe que gostava muito dele, mas a sua profissão estava acima de tudo na sua vida e não a trocaria nunca por nada, mesmo pelo amor e o casamento. Acabaram por combinar dar-se um tempo para esclarecer a sua relação, pelo que seria melhor ele voltar para a sua aldeia. A mãe de Kátia apoiou e disse que, em julho, o chamariam para ir passar todo o verão com elas à Crimeia, onde costumavam ir de férias.

Foi assim que Mítia se meteu no comboio para uma longa viagem de regresso à sua aldeia na remota província de Oriol. Ali, começou a refugiar-se na leitura; as raparigas da terra desejavam-no, mas ele achava-as insípidas e muito básicas; chegaram a atribuir-lhe uma candidata a noiva. Mas a beleza das flores, o canto dos pássaros, os perfumes primaveris, tudo lhe lembrava Kátia. Escrevia-lhe e aguardava ansiosamente uma resposta, mas esta nunca chegava. O tempo das ansiadas férias de verão ia-se aproximando. Até que um dia recebeu uma carta de Kátia. O que dizia essa carta? Que sentimentos e atitudes despertou em Mítia? Saberão lendo o livro.

Tudo é possível, “até uma morte de amor, mas nunca a morte do amor”, como escreveu Filipe Guerra no prefácio ao livro. Esta noção de amor é uma constante na obra de Ivan Búnin.

 

Nota: Há em Portugal duas traduções deste livro. A primeira, com o título de “Amor Que Santifica”, é de 1942 pela Editorial Inquérito, com tradução de José Marinho; a segunda, que eu li, tem o título “O Amor de Mítia” e é de 2004 pela Relógio D’Água, com tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra. Tenho os dois livros.

 

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