
Comentário ao livro “O PÁTIO MALDITO” de Ivo Andric
Ivo Andric foi um escritor nascido na Bósnia, numa aldeia perto de Travnik, que na altura fazia parte do Império Austro-Húngaro e tinha sido antes parte do vasto Império Otomano. Em 1912, completou o ensino secundário e foi para a Universidade, onde começou a interessar-se pela política. Inscreveu-se num movimento de jovens revolucionários que lutavam pelo fim do Império e a criação de uma Jugoslávia unida. Esse grupo preparou e executou o atentado que vitimou o arquiduque Francisco Fernando da Áustria, acontecimento que despoletaria a Primeira Guerra Mundial. Andric foi capturado como suspeito de participar no atentado e condenado a três anos de cadeia na prisão de Maribor onde foi «humilhado como um verme», como ele escreveu mais tarde. Foi esse tempo de cativeiro que lhe inspirou a escrita de “O Pátio Maldito”, livro que publicou quando já tinha mais de 60 anos de idade.
“O Pátio Maldito” conta a história de Frei Petar, um monge bósnio que vivia tranquilamente no seu convento, dedicando-se ao seu passatempo de relojoeiro, espingardeiro e mecânico, enfim tudo o que tinha que ver com mecanismos, um tema que o apaixonava, mas que era mal visto por outros frades que achavam que ele esbanjava os dinheiros da congregação em ferramentas e artefactos sem valor e sem interesse para ninguém. Como ele sabia falar e escrever muito bem turco, foi escalado para acompanhar outro monge a Constantinopla, onde foi preso por engano e esteve cativo durante dois meses na mais famosa e temida prisão da capital do Império Otomano conhecida por “Pátio Maldito”.
Passaram muitos anos e Frei Petar acaba de morrer. Enquanto dois frades fazem o inventário das ferramentas que enchem a sua cela, um jovem frade recorda a história que ele não se cansava de lhe narrar, acerca dos estranhos acontecimentos que viveu naquela cadeia. Contados de forma fragmentária, ao sabor da memória, foram organizados pelo seu jovem admirador e narrados nesta novela surpreendente.
Presídio de passagem, por ali passam as mais variadas personagens que formam uma multidão colorida que muda sem cessar. Por ali passa todo o tipo de detidos, desde os meliantes de todo o género que povoam as ruas de Constantinopla, a presumíveis espiões, assassinos que aguardam julgamento e exilados de quem se aguarda o esclarecimento das suas verdadeiras intenções. Há pessoas de todos os credos, interesses políticos, classes sociais, línguas, posses, inocentes ou culpados.
No meio desta confusão, aparece um jovem de Esmirna, de nome Kâmil que, nos poucos dias que ali passa, se relaciona com Petar, mas é muito reservado, o que espevita a curiosidade do frade. Quem seria Kâmil e porque estaria ali? A sua curiosidade ainda aumenta mais com as meias palavras de uns judeus de Esmirna que por ali passaram. Não tardou que Haim, o “cusco” do Pátio, sempre desconfiado e em movimento como uma doninha, lhe viesse contar em segredo a trágica história de Kâmil.
Este caso é o ponto central da narrativa, mas giram à sua volta as vidas dos inúmeros reclusos que vêm e vão diariamente. São histórias de todo o género, umas trágicas, outras trágico-cómicas, outras ridículas, as que cada um transporta e tornam a leitura desta novela uma história composta de muitas histórias.
É um livro curto que se lê rapidamente e dá ao leitor uma breve panorâmica sobre os Balcãs no tempo do Império Turco, uma zona da Europa que, desde tempos imemoriais, foi ponto de passagem dos mais variados povos, sempre envolvida em conflitos e mudanças.
Ivo Andric foi galardoado com o Prémio Nobel de Literatura de 1961.
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