
Kazuo Ishiguro nasceu no Japão, mas reside na Inglaterra desde os 5 anos de idade. Por isso, a sua formação tem mais a ver com a cultura europeia do que com a cultura oriental. Não admira, por isso, que a maioria das suas obras, sobretudo os livros mais recentes, pouco ou nada tenham que ver com o Japão. Na verdade, só no seu segundo romance a ação se passa no Japão.
Kazuo Ishiguro surpreende sempre cada vez que publica um novo romance e a sua última surpresa é este romance futurista “Klara e o Sol” que, desta vez, aborda a questão da robótica e as suas implicações, especialmente no campo da inteligência artificial. Não se trata aqui do problema da perda de emprego humano a favor de máquinas, mas da eventual possibilidade de máquinas dotadas de inteligência artificial poderem atingir um desenvolvimento em que tenham sentimentos e possam ter atitudes movidas por amor, por ódio, por inveja ou qualquer outro sentimento, o único aspeto em que se julga que as máquinas nunca poderão igualar o ser humano.
A trama narra a história de uma AA (Amiga Artificial), uma espécie de robots destinados a ser acompanhantes e protetores de crianças. Eram uma espécie de brinquedo sofisticado, com o qual a criança não só brincava, mas dialogava, passeava, como se fosse outra criança sua amiga incondicional. Alimentadas por energia solar, as AA tornavam-se mais ativas e eficientes quando expostas ao sol. Programadas para servirem cegamente a sua dona, as AA tornaram-se uma moda que todas as mães desejavam para os seus filhos e estes não dispensavam, sendo tema de conversa nas escolas e encontros de jovens e discussão das virtualidades da AA de cada um. Tal como o vestuário e calçado, discutia-se o preço das AA e competia-se por ter o último modelo do mercado.
Klara era uma AA da segunda geração que estava a começar a ficar ultrapassada quando foi adquirida por uma criança doente, que se apaixonou por ela, um pouco contra a vontade da mãe, que preferia um último modelo. Mas Klara veio a revelar-se muito inteligente, dotada de uma grande capacidade de evolução e extremamente fiável, que acabou por ser vital na cura da sua dona, contra todas as expetativas médicas. Fazendo a comparação com um cão que fosse inteligente, a sua fidelidade e dedicação total a Josie levou-a a utilizar as capacidades que foi adquirindo, arriscando-se a “avariar” e acabar lançada na lixeira, para a salvar. A própria mãe de Josie se afeiçoou a Klara e chegou a equacionar a possibilidade de a adotar para substituir a sua filha humana, quando a morte a levasse, tal como já tinha acontecido com a sua primeira filha, a Sal prematuramente falecida.
Embora sejam simples exemplos das várias situações que a história de Klara nos apresenta, já deu para perceber as implicações de ordem social, moral, sentimental e humana que o avanço da inteligência artificial pode suscitar. Gostei muito da escrita de Kazuo Ishiguro neste livro. A história é narrada na primeira pessoa por Klara e o autor soube encontrar uma forma de narrar os acontecimentos como se fossem contados por um bebé que está a aprender a conhecer o mundo e que tem uma forma de se expressar diferente de um ser humano. Os cenários chegam aos olhos de Klara sob a forma de cubos tridimensionais que ela reconstrói no seu cérebro. Não refere o que vê pelos nomes que lhe damos, fruto da nossa experiência construída ao longo dos anos, mas através de “alcunhas” que lhe atribui, baseadas no seu aspeto ou no seu formato, ou, no caso de humanos, na sua função, no seu vestuário ou outras características distintivas, dado que não existem no seu cérebro referências que lhe permitam descrevê-los de outra forma. A leitura deste romance torna-se assim muito agradável pelo apelo que faz à nossa imaginação.
Deixe um comentário