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Comentário ao livro “A SAGA DE GÖSTA BERLING” de Selma Lagerlöf

Selma Lagerlöf nasceu com problema nos ossos da bacia e, aos três anos e meio, ficou de cama durante bastante tempo. Recuperou, mas ficou sempre a mancar um pouco para o resto da vida. A sua avó tomou conta dela durante a doença e contava-lhe histórias fantásticas, lendas relacionadas com o passado da sua terra natal que influenciaram os seus escritos. “A Saga de Gösta Berling” foi o seu primeiro romance e inspira-se diretamente nos temas das sagas e contos da região sueca de Värmland, onde ela cresceu.

De facto, a história narrada no livro é de caráter bastante fantástico e lembra as lendas antigas que se contavam ao serão no tempo em que as famílias conviviam à lareira, de que eu ainda me lembro, mas a vida urbana moderna fez desaparecer.

A personagem principal é Gösta Berling, um jovem sacerdote que foi exonerado das suas funções por aparecer completamente bêbado na missa e ser a vergonha de toda a congregação. Mas que podia ele fazer numa região onde todos os homens bebiam e tudo lhes servia de pretexto para o fazer? O frio convidava à aguardente e beber era a única forma de se inserir entre os seus paroquianos. Mas os senhores e senhoras importantes foram fazer queixa ao bispo e isso foi o seu fim.

 

Gösta Berling caiu na mendicidade até que foi recolhido na casa de uma rica condessa que albergava continuadamente doze “cavalheiros”, por regra idosos e antigos militares regressados das várias guerras em curso, que não tinham eira nem beira. Quando um morria, era recrutado outro. Gösta Berling tinha nessa altura cerca de trinta anos e era o único ainda na flor da idade. Sucede que era belo, bem-falante, com fama de poeta e era a perdição das mulheres. Ele queria ser honesto, queria manter a sua dignidade de ex-clérigo, mas não era fácil.

Os doze cavalheiros eram a coqueluche das festas, dos bailes, dos jantares e eram convidados para tudo, sendo Gösta Berling sempre a personagem que se salientava. Mas a história dá muitas voltas e ele vai ter de representar muitos papéis junto dos membros da comunidade, sendo muitas vezes o herói e outras o vilão, mas sempre com a melhor das intenções. Salva mulheres de maridos violentos, entrega outras a tristes sinas; apaixona-se e é objeto de paixões; colabora em tramoias e é o salvador de outras que, sem o seu empenho, acabariam muito mal. No meio de tantos acontecimentos, não podia faltar um pacto de sangue com o diabo, animais ferozes da floresta, encontros noturnos improváveis, exorcismos, bruxas, fantasmas, enfim, lendas daquelas que assombravam miúdos e graúdos ao serão.

O estilo da escrita é muito interessante, lembrando as referidas conversas à lareira, nas longas noites de inverno. O(a) narrador(a) é exterior à história e introduz as narrativas com expressões como: “Ouçam só a proeza que ele, Kristian Bergh, o possante capitão, fizera!” ou “Agora tenho de descrever o lago comprido, as planícies ricas e as montanhas azuis (…)” ou ainda “Esta história aconteceu por volta do solstício do Verão, na mesma época em que, agora, escrevo isto” ou ainda esta “Agora tenho de contar que havia na pequena casa da senhora Moreus uma inquilina”.

A autora cria assim o ambiente que nos permite hoje sentirmo-nos a viver aquelas histórias de séculos passados, como se tivessem acontecido ontem. É também importante salientar que, apesar das muitas personagens e situações anteriores apresentadas em capítulos posteriores, não perdemos o fio à narrativa. Por alguma razão, este livro e “A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson através da Suécia” são consideradas as obras mais importantes de Selma Lagerlöf.

 

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