
Isis, oh, Isis, you mystical child. What drives me to you is what drives me insane.
(Bob Dylan e Jacques Levy, do álbum ‘Desire’)
Conheci-te naquele mês de maio e foi amor à primeira vista. Em pouco tempo, o nosso amor tornou-se imenso. Parecia que nos amávamos desde sempre e a vida só começara no dia em que os nossos olhos se cruzaram pela primeira vez. Não pudemos continuar a viver separados. Sonhei dar-te tudo aquilo que uma mulher pode desejar e, no princípio, tudo corria bem. Ambos tínhamos emprego, embora precário, ganhávamos o suficiente e estávamos a pensar seriamente em ter um filho. Mas, inesperadamente, o meu contrato não foi renovado e a felicidade ruiu de um dia para o outro. Procurei por todo o lado, respondi a todos os anúncios, sujeitei-me a todos os tipos de serviço, mas não consegui trabalho. Não podia ver-te triste e parti. À tarde, quando chegaste do emprego, encontraste uma carta minha sem indicação de nova morada.
Mudei de cidade e agora a minha vida é a rua. Conheci novos amigos e novas formas de viver, ou sobreviver. Ensinaram-me que se podia dormir com algum conforto em parques de estacionamento ou em estações de comboio e, à falta de melhor, se podia sobreviver num recanto das arcadas de um prédio ou até debaixo de um viaduto da estrada. Aprendi com eles técnicas para conseguir recolher esmolas na rua e, quando não chegava para matar a fome, como podia surripiar algo num hipermercado ou nas bancas do mercado.
Um dia, um novo amigo propôs-me entrar num negócio, que nos daria muito dinheiro. “Um negócio?! Como? Para isso é preciso capital”. Ele explicou-me que, para este tipo de negócio, só era precisa habilidade e coragem. Então, dei comigo a sonhar que ainda podia recompor a vida contigo. Se o negócio corresse bem e a comissão fosse boa, talvez até pudesse dar-te aquela joia com que sempre sonhaste.
“Não tens que fazer nada”, dizia o companheiro. “Tu guias bem, não guias? Levas o meu carro e, quando eu disser, encostas, nós saímos e esperas ao volante que eu e os outros colegas voltemos com a mercadoria. Depois arrancas e levas-nos calmamente dali para fora. Como vês, é fácil, simples e rápido.” No dia aprazado, o carro apareceu, eu guiei e esperei no local combinado, uma zona reservada de uma transversal escura. Depois de uma grande espera, ouvi sirenes e uma grande algazarra, vindas da rua principal. Abriram-se-me os olhos e soube imediatamente qual era o tipo de negócio. Algo devia ter corrido mal. Deixei discretamente o carro e desapareci no meio da multidão que saía do cinema.
Nessa noite, senti uma necessidade irresistível de te procurar. “Então, como tem sido a tua vida?”, perguntaste tu. “Nada de especial”, respondi eu. “Por onde tens andado?”, perguntaste tu. “Por aí”, disse eu. “Pareces diferente”, disseste tu. “É impressão tua”, respondi eu. “Ficas?”, perguntaste tu. “Não posso, desculpa”, respondi eu.
Minha querida, meu angélico amor, como eu gostava de poder voltar àquele dia de maio. Poder rebolar contigo na relva do jardim, transportar-te de novo nos meus braços, fazer-te sorrir de novo.
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