Grandes autores Grandes livros

Aqui encontra links para vídeos e áudios sobre grandes autores e as suas obras, recensões de livros, textos literários de minha autoria e notícias do mundo literário

Chamo-me Sebastião Barata e resido em Lisboa. Tenho 79 anos e leio desde muito novo. Uso a minha grande biblioteca para fazer vídeos e áudios que divulgo nas minhas redes sociais. Sigam-me!

O Elogio da Madrasta.jpg

Comentário ao livro “ELOGIO DA MADRASTA” (e outros com ele relacionados) de Mario Vargas Llosa

Estes poderão não ser os livros mais famosos de Llosa, mas são um conjunto de obras belas, arejadas e que vão deixar muito bem-disposto quem se dispuser a lê-las. Estou a falar de “Elogio da madrasta” (1988), “Os cadernos de Dom Rigoberto” (1997), “O Barco das Crianças” (2014) e “Fonchito e a Lua” (2020). Como se vê, abrangem um vasto lapso de tempo na vida e na escrita do autor, sendo o último a sua mais recente obra. Pelos vistos, ele mesmo se apaixonou pela personagem central, a tal ponto que teve de voltar a ela ciclicamente.

E esta personagem central é “Fonchito” ou “Foncho” ou “Alfonchito”, tratamento familiar de uma criança chamada “Alfonso”, filho de Dom Rigoberto e enteado de Dona Lucrécia. Dom Rigoberto era um bem-sucedido gestor de seguros que enviuvou, ficando responsável pelo seu único filho de cinco anos de idade. Casou em segundas núpcias com Dona Lucrécia, uma senhora mais nova e muito bonita, ao contrário dele, que não devia muito à beleza, especialmente o seu nariz “rotundo e aquilino” que ele, no entanto, considerava “muito sensível, tuberoso e ornamental”.

 

Quero avisar os candidatos a leitores que “Elogio da Madrasta” e “Os Cadernos de Dom Rigoberto” são obras assumidamente eróticas, mas de um erotismo superior, educado e bem-falante, portanto nada de pornografia. Já Llosa havia aflorado o estilo erótico em “A Tia Júlia e o Escrevedor” (1977), obra inspirada numa sua tia que faz lembrar Dona Lucrécia. Mas era uma história mais suave, sem caráter nitidamente erótico como estas.

Voltando à história, vemos em “O Elogio da Madrasta” que a grande preocupação de Dona Lucrécia era que Fonchito não gostasse dela e a rejeitasse. Por isso, ficou muito feliz quando ele lhe escreveu um bilhetinho muito carinhoso no dia em que ela fez quarenta anos de idade. E foi nessa data que, pela primeira vez, ela se sentiu deliciada com as carícias infantis e os beijos inocentes do seu enteado. Daqui nasceu uma espécie de triângulo amoroso, que envolvia Lucrécia, Rigoberto e Fonchito. Muito resumidamente e não querendo desvendar mais do que o necessário, direi que a paixão de Lucrécia pelo seu enteado cresceu a tal ponto que Dom Rigoberto os apanhou um dia em atos menos próprios e expulsou Lucrécia de casa.

Em “Os Cadernos de Dom Rigoberto”, vamos encontrar Lucrécia vários anos depois a residir na sua nova morada, quando Fonchito já era um adolescente e foi surpreendida com a visita do enteado, que pretextou não conseguir mais viver longe dela e a convidou a voltar para casa de Dom Rigoberto, afirmando que o seu pai continuava a amá-la muito e andava também muito deprimido.

Dom Rigoberto era louco por pintura e tinha um conjunto de livros com reproduções de quadros célebres, a maioria dos quais eróticos, de vários autores, entre os quais os que são nomeados e reproduzidos nos dois livros: Jordaens, Boucher, Vecellio, Bacon, Szyslo, Fra Angelico, Klimt e especialmente Egon Schiele, cujos quadros desempenham um papel importante em “Os Cadernos de Dom Rigoberto”. Eram o seu segredo que guardava bem fechados no seu escritório. Mas o filho conseguiu ter acesso a esses livros. Talvez por influência do pai, Fonchito gostava de pintura e estudava agora numa escola de artes, onde se apaixonou pelos quadros eróticos de Schiele. Sabia tudo sobre o pintor, as suas técnicas, quem foram os seus modelos e como procedia para os atrair ao estúdio e os pintar nas mais exóticas posições.

Lucrécia recusava-se a atender os pedidos de Fonchito de regressar a casa, com receio de ser rejeitada pelo marido. Mas Fonchito, esperto como era, engendrou uma forma de resolver o problema. Será que vai conseguir reunir a família de novo?

Para terminar, uma breve referência aos outros dois livros, que são obras infantojuvenis protagonizadas por Fonchito. “O Barco das Crianças” é uma história passada quando Fonchito era adolescente e destina-se a crianças desse segmento etário. Quando saía de casa para apanhar o autocarro para o Colégio, Fonchito começou a encontrar na paragem um velhinho que lhe começou a contar uma história inverosímil de um barco cheio de crianças que navegava pelos mares, nunca aportava a qualquer porto e essas crianças não cresciam (tal como as de Peter Pan). Todos os dias o velhinho olhava fixamente o mar, enquanto lhe contava mais um pouco da história, até que o autocarro chegava. Um dia, o velhinho não estava na paragem. O que lhe teria acontecido?

“Fonchito e a Lua” é para crianças de 6 a 10 anos e situa-se quando Fonchito tinha essa idade e se apaixonou pela sua colega Nereida. Mas ela não lhe ligava nada e, quando Fonchito teve a coragem de lhe pedir um beijo, desdenhou dizendo que só lho dava se ele conseguisse trazer-lhe a Lua. Será que Fonchito vai ser capaz de satisfazer o pedido de Nereida e conseguir o desejado beijinho?

Temos aqui um conjunto de quatro livros para toda a família, muito ligeiros, muito românticos e de leitura muito agradável, escritos por um dos melhores autores do nosso tempo, galardoado com o Prémio Nobel de Literatura de 2010.

 

Posted in ,

Deixe um comentário

Discover more from Grandes autores Grandes livros

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading