
O HERÓI DISCRETO de Mario Vargas Llosa
Este sim, é um livro à Llosa! Começa com duas histórias, aparentemente sem qualquer relação, qual delas a mais rocambolesca.
Uma passa-se em Piura, uma pequena cidade de província, e tem como personagem principal Felícito Yanaqué, um respeitável cidadão proprietário de uma empresa de camionagem que mais não ambiciona do que o anonimato e continuar a dirigir o seu negócio.
A outra passa-se em Lima, a capital, e tem como personagem principal Rigoberto um velho e dedicado funcionário de uma companhia de seguros que espera a aposentação para breve, a fim de poder fazer a viagem à Europa com que sonhou a vida toda.
Mas, inesperada e subitamente, tudo se complica.
No primeiro caso, Felícito começa a receber cartas anónimas de um suposto gangue mafioso que lhe exige uma mensalidade para lhe “proteger” o negócio, ameaçando que iria arrepender-se amargamente se não colaborasse. Ora, ele podia ser tudo menos cobarde e ninguém lhe iria tirar um tostão que fosse do dinheiro que lhe tinha custado tanto a ganhar, de modo que decidiu contar tudo à polícia. Foi o início de uma odisseia que lhe trouxe problemas pessoais e familiares muito maiores do que os financeiros que ele temia.
No segundo caso, tudo se complica quando o patrão convida Rigoberto, o seu leal colaborador de tantos anos, para ser, secretamente, testemunha do seu casamento com a sua criada, o que desencadeou a ira dos dois filhos daquele, uns irremediáveis patifes, que planeavam afastar o velho e esbanjar a empresa, o que o pai não podia permitir, fazendo o casamento parte do plano para os deixar na miséria.
Estavam criados os ingredientes para um romance absorvente, escrito num estilo satírico em que o autor ridiculariza os parasitas da sociedade do seu país, o Peru, mas que podia perfeitamente localizar-se em qualquer outro. As situações sucedem-se a um ritmo alucinante, com cenas hilariantes, mas também com algo de policial e de suspense, em que a verdade de um capítulo passa a ser a mentira do seguinte. Descobertos finalmente os criminosos de ambas as histórias, começa a desenhar-se a ligação que vai permitir a sua fusão, o que só ocorre na página 296. A partir daí, dá-se uma inflexão: os maus começam a sentir as consequências dos seus atos e os bons a recompensa da sua justeza, lealdade e nobreza de caráter, até à apoteose final.
Duvidei até ao fim sobre o final e construí na minha cabeça várias hipóteses, pois se me tornava difícil aceitar o caminho para onde o autor me conduzia naquelas 90 páginas finais. Pensei ingenuamente que se daria um volte-face, mas aqui veio à tona a experiência de vida do autor que sofreu com as ditaduras que oprimiram o povo da sua Nação. A vida é como é, as pessoas são o que são e, realisticamente, o final não podia ser outro. Como diz o povo “ninguém faça mal à espera que daí lhe venha bem”.
Achei muito interessante a forma de escrever em que o autor funde diálogos do passado com os do presente. Por exemplo, se um filho vem contar ao pai uma conversa que teve com alguém na rua, ambas as conversas são apresentadas no presente. Numa escrita tradicional, o autor narraria a primeira conversa, cujo teor seria dado com adquirido pelo leitor na segunda. Llosa cria uma interessante simbiose entre as duas: quando o filho diz que viu fulano e o pai lhe pergunta do que falaram, inicia-se o diálogo anterior do filho com o tal alguém; se o pai interrompe para pedir uma explicação, a continuação do diálogo vai dar explicação, mas sempre como se ambas as conversas estivessem a ocorrer agora. Pode criar alguma confusão no leitor, mas não haja dúvida de que torna o texto muito mais aliciante e emotivo, o que, no caso do presente romance, muito beneficia o desenrolar da trama romanesca. Muito bom. Na verdade, não é à toa que o Comité Nobel atribui o Prémio de Literatura que, em 2010, distinguiu Mario Vargas Llosa.
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