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Comentário ao livro “MUDANÇAS” de Mo Yan

“Mudanças” é uma novela do autor do grande romance “Peito Grande, Ancas Largas”, o único livro editado em Portugal antes de lhe ser atribuído o Prémio Nobel de Literatura de 2012.

Na sinopse diz-se que se trata de um “romance disfarçado de autobiografia, ou vice-versa”. Eu preferia dizer que se trata de uma autobiografia disfarçada de novela, e não o contrário. Na verdade, ao ler este pequeno livro que se lê em duas ou três horas, encontrei uma memória do que conheço sobre a vida de Mo Yan na sociedade chinesa.

 

Aliás, o verdadeiro nome do autor é Guan Moye e o pseudónimo Mo Yan significa “não fale”, o que já dá ao leitor uma ideia da sociedade em que nasceu e foi criado. Mo Yan nasceu em 1955, em plena época de consolidação do regime comunista de Mao Tsé Tung na China.  Quando tinha três anos, o Partido Comunista da China lançou a operação que ficou conhecida como o “grande salto em frente”, cujo objetivo era estruturar a produção agrária e a produção industrial num sistema cooperativo. Os seus pais eram proprietários de terras que viram passar para a esfera pública. Mo era uma criança inteligente e de escrita fácil, mas rebelde, que teve problemas na escola com professores pouco habilitados que temiam ver-se ultrapassados, pelo que acabou por ser expulso por motivos fúteis. O mesmo acontecia com os dirigentes da cooperativa, membros do Partido e pouco cultos, que tentavam amordaçar as famílias de origem na classe média, como era a do jovem Moye, que tinha membros cultos e até com cursos superiores.

Perante o fracasso do “salto em frente” que se saldou numa enorme miséria que levou à morte muitos milhares de camponeses e operários, Mao Tsé Tung lançou a Revolução Cultural em 1966, com o objetivo de eliminar a oposição dentro do próprio Partido Comunista e implementar a sua mentalidade, atacando os “quatro velhos”: as “velhas ideias”, a “velha cultura”, os “velhos hábitos” e os “velhos costumes”. Incentivou a criação de comités revolucionários nas unidades de produção e criou a “Guarda Vermelha”, um verdadeiro exército repressivo.

O pai de Mo Yan procurou formas alternativas de ensinar o filho, recorrendo inclusive a livros fornecidos pelo filho mais velho que era professor na escola de uma unidade fabril. Mo também foi ajudado por um “vizinho” que era licenciado em literatura chinesa e tinha sido condenado ao trabalho de “reeducação” no campo. Tornou-se muito sabedor em várias matérias, o que lhe permitiu exercer trabalhos de escritório.

Mas o seu sonho era deixar aquele ambiente rural sem futuro e o único caminho que lhe pareceu possível era entrar no EPL – Exército Popular de Libertação, as forças armadas do regime.  Não foi fácil, porque eram precisas informações favoráveis dos cabecilhas locais do Partido, mas conseguiu entrar, depois de várias tentativas. Foi a porta que se lhe abriu para vir a tornar-se no escritor que sonhava ser. Subiu dentro do exército e formou-se na Escola de Arte e Literatura do Exército, vindo a tornar-se um dos maiores escritores chineses da atualidade e a ser galardoado com o Prémio Nobel de Literatura.

Tudo isto é referido neste pequeno livro, salientando as partes mais felizes e suavizando as mais infelizes da sua biografia. Um pormenor importante e que torna o livro mais apetecível para um leque variado de leitores é a envolvente romântica de que Mo Yan revestiu a trama. Trata-se de Lu Wenli, uma menina que foi sua companheira de carteira na escola, que era muito bonita e pela qual todos os garotos e até alguns professores estavam apaixonados. Lu Wenli, cuja vida não foi fácil, vai estar no centro da história reaparecendo epodicamente na vida de Mo Yan ao longo dos anos.

Nunca se referindo ao regime político da China, “Mudanças” mostra-nos como a corrupção existe mesmo e os membros do Partido dominam e exploram os pobres e simples cidadãos; como os espertos conseguem subverter o sistema e enriquecer; como, afinal, um sistema político que se diz popular, consegue ser tão injusto e desigual.

“Mudanças” é uma novela agradável e que vale a pena ler, pois, através da descrição suavizada e romantizada da vida do autor, ficamos a conhecer um pouco do regime comunista da China e da sua evolução desde meados de século XX até à atualidade.

 

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