
Comentário ao livro “VIGDIS A INDOMÁVEL” de Sigrid Undset
Depois de escrever um grande romance situado na Idade Média que foi recusado pelo editor e mais alguns romances contemporâneos, cujas protagonistas eram mulheres fortes e contemporâneas que lutavam pela emancipação, mas que não deram muito nas vistas, Sigrid Undset escreveu “Vigdis a Indomável”, um romance com tal aceitação pelos leitores que lhe permitiu passar a dedicar-se exclusivamente à escrita.
O título original do romance significa “A história de Viga-Ljot e Vigdis”. Na verdade, é a história de um grande amor entre Liot e Vigdis, ele islandês e ela norueguesa, e passa-se no tempo dos Vikings. Ljot foi alcunhado de “Viga Ljot”, pela sua força e bravura. Era um jovem invulgarmente dotado, com as qualidades de um chefe, consciencioso e honrado, embora pouco falador e amigo de se isolar, talvez marcado por ter ficado órfão de pai e de mãe muito pequeno e ter sido criado por um tio que, no entanto, o estimava muito.
O tio era um comerciante que viajava no seu grande barco negociando especialmente em madeira. Começou a levar o sobrinho nas suas viagens quando este começou a ser um jovem. Foi numa dessas viagens que aportou à Noruega, onde conheceu Vigdis, filha única de um abastado proprietário local, e apaixonaram-se mutuamente. Mas vários obstáculos dificultaram o seu casamento, entre os quais ela estar prometida ao filho de outro abastado proprietário vizinho, para além do facto de o pai não ver com bons olhos que a sua querida filha partisse para a Islândia.
Depois de muitos contratempos, ele atrai-a para um local ermo, com o objetivo de a convencer a partir com ele, mas, perante a recusa dela, acaba por a violar e partir sozinho. Desta violação nasceu um filho que nunca conheceu o pai até aos 17 anos de idade e foi ensinado a odiá-lo, ao ponto de a mãe lhe dizer um dia que a maior prova de amor que lhe podia dar era colocar no seu colo a cabeça do pai. Mas o destino caprichoso, que adora alterar os desejos das pessoas, colocou-o perante uma situação em que não conseguiu decidir entre o amor ao pai e o amor à mãe. Como poderá terminar esta história? Duas cores o podem definir: um final cor-de-rosa ou um final negro. Será que vai acontecer uma reconciliação e Vigdis e Ljot serão felizes para sempre?
Não é um romance muito grande, não tem avanços e recuos, não tem grandes tiradas com descrições minuciosas que só servem para cansar o leitor e dar vontade de passar à frente. Pelo contrário, é uma narrativa sintética, em que tudo o que está escrito é essencial para o desenvolvimento do tema. A história evolui de uma forma natural, cronológica e é fácil de seguir. Tem um número relativamente reduzido de personagens, todas elas com um papel importante.
Poderá não agradar a alguns leitores, especialmente a leitoras que gostam de histórias românticas com um final feliz. Aqui os amantes só encontram contrariedades, situações que impedem um relacionamento agradável, amores proibidos pelas circunstâncias, casamentos de recurso, em suma, cenas que fazem lembrar “Romeu e Julieta”.
Um motivo de interesse é a dimensão histórica, passando-se no início da Idade Média, uma época em que o cristianismo estava a espalhar-se na Escandinávia, a figura de Jesus Cristo estava a substituir os deuses celtas e os reis e as classes dominantes se convertiam, nem sempre por razões de fé. Temos também um vislumbre sobre as viagens dos vikings, aqui apresentados como comerciantes inteligentes e não como guerreiros brutos, como são descritos nas aventuras de banda desenhada, embora fossem frequentemente forçados a envolver-se em lutas violentas contra corsários e povos que não os recebiam bem.
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