
Comentário ao livro “VISLUMBRES DA ÍNDIA” de Octavio Paz
Octavio Paz começou por ser um jovem revolucionário mexicano que participou na Guerra Civil de Espanha ao lado dos republicanos. Depois da Segunda Guerra Mundial, foi diplomata, mas demitiu-se em 1968, quando era embaixador na Índia, como protesto pelo massacre de jovens estudantes, pouco antes dos Jogos Olímpicos do México, que se manifestavam contra o governo. Depois disso, foi professor universitário em várias universidades e editor de revistas literárias. Desde muito novo desejou ser escritor, e foram os seus livros que o celebrizaram, sobretudo depois de ganhar o Prémio Nobel de Literatura de 1990.
Octavio Paz foi, sobretudo, ensaísta e poeta. Que eu saiba, não há qualquer livro de poesia seu editado em Portugal. Mas há, pelo menos, três ensaios, dois dos quais relacionados com a sua estadia na Índia como embaixador do México desde 1962 a 1968: “O Macaca Gramático” e “Vislumbres da Índia”. Alguns dos seus ensaios podem também ser considerados livros de viagens, pois contêm reflexões ligadas aos países onde esteve de viagem ou na sua atividade diplomática. É o caso de “Vislumbres da Índia”.
Octávio Paz estava colocado na embaixada de Paris quando foi mandado seguir para a Índia, ainda não como embaixador. A viagem foi de barco através do canal de Suez e conheceu nessa viagem algumas pessoas cultas, através das quais veio a adquirir muitos conhecimentos sobre a Índia, como as suas tradições, religiões, monumentos e política. Entretanto, foi mandado para o Japão, onde esteve algum tempo até que foi nomeado embaixador na Índia e voltou para esse país com muito prazer.
“Vislumbres da Índia” tem quatro partes. Na primeira, nitidamente um livro de viagens, fala da sua estadia em Bombaim e Deli, da sua partida para o Japão e do seu regresso a Deli como embaixador; fala das suas viagens através de todo o território indiano, incluindo a ilha de Ceilão. Na segunda parte, fala das várias religiões e línguas faladas na Índia, assim como do sistema de castas, explicando a sua origem, diferenças e evolução, tornando o subcontinente numa amálgama difícil de integrar, se não impossível. Na terceira parte, a que chama “um projeto de nação”, mostra como as várias sensibilidades referidas na parte anterior dificultam, ou até impedem, a construção de um estado unido e a implantação de um regime democrático; fala de Gandi e de Nehru que tentaram implantar a democracia, cada um à sua maneira, e das dificuldades que tiveram de enfrentar. Na quarta parte, explica resumidamente em que consiste o Hinduísmo, a religião dominante no País, as principais zonas de choque com o Bramanismo, o Cristianismo e o Islamismo, as outras religiões com maior expressão na Índia; fala do Paquistão, país que se formou como reação do Islamismo à sua marginalização na Índia pelos governantes que tentaram impor o Hinduísmo como religião oficial, acabando com o caráter de país laico, que já vinha do tempo anterior à independência, quando a Inglaterra colonialista nunca forçou a prática da religião anglicana. Num pequeno epílogo a que chamou “Despedida”, Octavio Paz explica as razões que o levaram a deixar a Índia, na sequência das famosas manifestações juvenis que eclodiram em 1968 em vários países da Europa e acabaram por contagiar os jovens mexicanos; fala das saudades dos lugares e das pessoas que deixou na Índia, onde ele e a sua esposa viveram meia dúzia de anos maravilhosos.
É um livro pequeno, com uma escrita corrida, que pode interessar a quem deseje conhecer mais sobre a Índia, ou seja um amante da literatura de viagens, ou deseje conhecer um pouco da vida do autor, pelas suas próprias palavras nesta obra autobiográfica.
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