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Comentário ao livro “LOUVADA SEJA” de Odysséas Elytis

Odysséas Elytis foi um poeta grego e grande cultor do Helenismo em toda a sua extensão histórica. Ao contrário de outros, não se voltou para a Grécia Antiga ou para a época Bizantina, mas dedicou-se exclusivamente ao helenismo de hoje, tentando construir uma nova mitologia, com base em aspetos psíquicos e sentimentais do povo grego do seu tempo.

O seu trabalho principal, escrito durante catorze anos, desde o fim da Segunda Guerra Mundial até ser publicado em 1959, é “Áxion Estí”, traduzido em Portugal com o título “Louvada Seja”. É um longo poema heroico onde são identificados os elementos fundamentais dos três mil anos de história e tradição grega e onde imagens do sol, do mar e da natureza se misturam com a liturgia Ortodoxa, e elementos pagãos se misturam com elementos cristãos.

 

Explico de um modo mais concreto, para todos perceberem. O poema divide-se em três conjuntos, construídos à imitação da Bíblia. O primeiro chama-se “Génesis”, o segundo “Paixão” e o terceiro “Glória”. Mas esta inspiração não passa disso mesmo, porque aqui o Criador não é Deus, o sofredor não é Cristo que morre na cruz, nem o glorioso é Cristo ressuscitado. O grande herói é a Grécia, mas há um pequeno herói com o qual o autor se identifica, em nome de todo o povo grego. Pelo menos é esta a minha interpretação.

 No “Génesis”, dividido em sete partes, como os dias da criação do mundo, Elytis celebra a beleza do seu país, as suas tradições, o seu percurso ao longo de vários milénios. No “Paixão”, construído à maneira das celebrações litúrgicas da Igreja Ortodoxa Grega, com hinos, leituras e salmos, Elytis relata o sofrimento do povo grego às mãos dos invasores nazis durante a Segunda Guerra Mundial. Finalmente, no “Glória” regozija-se com a libertação após a Guerra com um conjunto de louvores à Grécia e a tudo o que a compõe numa sucessão de quadras, tercetos e dísticos, muitos deles começados por “Louvada Seja”. Louva sucessivamente os ventos que visitam a Grécia, as ilhas que a formam, as flores que a adornam, as suas belas mulheres, os seus barcos típicos, as suas montanhas e as árvores características, como a oliveira, a romãzeira ou o cipreste, entre outras.

Apesar de não ser um grande amante de poesia, gostei muito deste extraordinário livro, cuja leitura aconselho, mesmo àqueles que, como eu, preferem outros géneros literários.

Este poema épico teve um grande sucesso na Grécia, pois veio encher os gregos de orgulho pelo seu país natal e ajudar a sarar as feridas da guerra. Com base nele, o grande compositor grego Mikis Theodorakis compôs uma Oratória para barítono, que foi amplamente difundida na Grécia e fora dela, e se tornou numa espécie de novo evangelho do povo grego. A música é moldada por elementos da música folclórica grega e deliberadamente mantida simples, tendo demorado mais de três anos até ser concluída.

Esta Oratória, com o mesmo título de “Áxion Estí”, foi cantada pela primeira vez em 1964 pelo barítono grego Grigoris Bithikotsis, numa interpretação sublime que se pode ver e ouvir no Youtube, seguindo este link: https://www.youtube.com/watch?v=aDfVjKT3rJ4).

 

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