
Comentário ao livro A MULHER DE CABELO RUIVO de Orhan Pamuk
Pode dizer-se que Pamuk é um escritor nato, porque nunca teve outra profissão se não escrever. Tirou o curso de Jornalismo, mas nunca foi jornalista. Também é um habitante completo da cidade de Istanbul, porque ali reside desde que nasceu até hoje, salvo um período de três anos em que esteve nos EUA com a esposa que ali frequentou a Universidade. E tem vivido sempre na mesma zona da cidade, residindo agora na casa onde nasceu. Não admira, pois, que as histórias da generalidade dos seus romances se passem nesta cidade da Turquia. É o caso de “A Mulher de Cabelo Ruivo”, o seu 10º e mais recente romance.
A personagem principal é Cem que narra na primeira pessoa a sua história desde a infância até ao dia da sua morte. Há um capítulo final que é narrado também na primeira pessoa, mas pela “mulher de cabelo ruivo” que faz o enquadramento da forma como conheceu Cem e conta os acontecimentos após a morte deste.
Resumidamente, Cem era filho de um farmacêutico opositor ao regime na clandestinidade, pelo que passava muito tempo fora e pouco apoiava a família, até que acabou por ser preso e condenado. Cem e a mãe passaram tempos difíceis, pelo que ele resolveu ir trabalhar nas férias do verão com o mestre Mahmut, um homem que abria poços à maneira tradicional sem recurso a maquinaria, a não ser um guindaste artesanal, que o ajudante movia para trazer os baldes de terra e pedras para a superfície. Era um trabalho pesado para um adolescente, mas seriam cerca de duas semanas e ganharia um bom dinheiro. Só que as expetativas foram goradas e nunca mais se atingia o veio da água, pelo que os trabalhos se foram prolongando.
À medida que os dias iam passando, o relacionamento entre o mestre e o ajudante foram-se cimentando e Cem encontrou em Mahmut o “pai” que não teve. Mas também começou a cansar-se do esforço e da desilusão por não encontrarem água. O poço que escavavam era nos subúrbios de Istanbul e, para descomprimir, ambos começaram a passar serões na aldeia próxima, onde Cem se relacionou com a mulher de cabelo ruivo, membro de uma companhia de comediantes ambulantes, com a qual acabou por passar uma noite. Certo dia, houve um acidente na obra e Cem julgou ter matado o mestre ao deixar cair o balde, quando Mahmut estava a uma profundidade de mais de dez metros. Fugiu apavorado e nunca mais soube das consequências do acidente.
A vida continuou e ele veio a tornar-se um rico construtor civil, tendo surgido trinta anos depois a oportunidade de adquirir aquele terreno que, devido ao avanço da zona urbana, já era um local absorvido e as casas se vendiam bem. Confrontou-se então com o seu passado e as consequências dos seus atos irrefletidos de quando era um rapazinho.
Um facto interessante é a ligação que Orhan Pamuk faz entre a história de Cem, Mahmut e a Mulher de Cabelo Ruivo, com o famoso mito do rei Édipo de Sófocles. O trauma que acompanhou Cem ao longo dos anos por julgar ter matado Mahmut que ele considerava um pai, fê-lo passar a avida a recolher informação sobre este mito, que ele tinha visto representar pelos comediantes, onde a mulher de cabelo ruivo fazia o papel de mãe de Édipo lavada em lágrimas, depois da tragédia em que Édipo casou com a sua própria mãe, depois de matar o seu pai que não conhecia. Mas há mais ligações entre os dois casos, assim como com outro mito em que o pai mata o filho sem saber, que não conto para não estragar a surpresa aos próximos leitores.
Com esta história e com o seu paralelismo com estes mitos fundacionais da civilização ocidental e oriental, Pamuk quis mostrar como é difícil escaparmos ao nosso destino, mas também explorar – através de histórias e de imagens – ideias sobre pais e filhos, sobre autoritarismo e individualidade, sobre estado e liberdade, sobre leitura e observação.
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