
Desde criança, fui sempre muito curioso e amigo de meter o nariz onde não era chamado. Teria eu quinze ou dezasseis anos, deparei-me um dia com uma pilha de livros e outros papéis velhos que tinham pertencido a um benemérito da minha aldeia, cuja habitação foi desocupada após a sua morte para ser transformada num hospital, de acordo com o seu testamento.
Eram preciosidades, mas eu desconhecia o seu real valor e, certamente, quem os despejou naquela cave também não sabia ou não lhe interessava saber. Infelizmente, tudo aquilo acabou queimado pelo jardineiro, de acordo com as ordens recebidas do executor testamentário.
Como sempre gostei de ler, não resisti à curiosidade de procurar algo que me interessasse e comecei a vasculhar a pilha. Era um amontoado anárquico para ali despejado sem qualquer cuidado. Chamou-me a atenção uma quantidade de livros todos iguais, o que achei muito estranho. Para quê queria o falecido tantos exemplares do mesmo livro? Na verdade, não eram iguais. Eu é que, na minha ingenuidade e também intimidado pelo receio de que alguém aparecesse e me ralhasse por estar ali, não me apercebi de tal facto.
Efetivamente, estava perante a primeira edição em livro de “As Farpas” de Ramalho Ortigão e Eça de Queirós. Os 11 primeiros volumes reúnem textos de Ramalho Ortigão selecionados e o 12º reúne os de Eça de Queirós. Ingénuo que era, retirei um volume qualquer e fugi dali, antes que alguém me apanhasse e ralhasse. A minha intenção era lê-lo e voltar depois a colocá-lo no mesmo local. Soube depois, ao ouvir, por acaso, uma conversa entre o dono da casa e o jardineiro, que toda aquela “lixarada” era para queimar, pelo que não tive qualquer remorso pelo meu ato e guardei o livro, às escondidas da minha mãe que me obrigaria a devolvê-lo. Só alguns anos depois, ao estudar Literatura Portuguesa no sexto ano do Liceu, soube que aquele era o 2º volume de uma coleção. Acreditam que, sessenta anos depois, ainda o tenho na minha estante, mas nunca o li?
“As Farpas” eram crónicas que foram publicadas mensalmente numa revista fundada por Ramalho Ortigão e Eça de Queirós, quando tinham, respetivamente, 35 e 26 anos de idade, entre maio de 1871 e novembro de 1882. Foram escritas inicialmente por Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, mas Eça interrompeu a sua participação em novembro de 1872, quando seguiu para Havana, no âmbito da sua carreira diplomática, continuando a ser escritas somente por Ramalho Ortigão.
“As Farpas” constituem um painel jornalístico da sociedade portuguesa nos finais do século XVIII, com artigos altamente críticos e irónicos que satirizam, com muito humor à mistura, múltiplos sectores da sociedade da época – da política á religião, dos costumes e hábitos, à mentalidade vigente.
Os autores não estavam interessados em provocar o riso fácil e inconsequente, mas sim na reforma das instituições em crise. Constituem, pois, um marco na literatura e na evolução cultural do país, uma vez que se impuseram como um novo e inovador conceito de fazer jornalismo – o jornalismo de ideias, de crítica social e cultural – que hoje é corrente.
Ramalho Ortigão reuniu uma grande parte das suas “Farpas” em 11 volumes organizados por temas, que foram publicados entre 1887 e 1890. Eça de Queirós, incentivado por Ramalho Ortigão, publicou posteriormente as suas num livro com o título de “Uma Campanha Alegre”, saído em 1890.
Fontes:
https://www.passeiweb.com/as_farpas/
https://pt.wikipedia.org/wiki/As_Farpas
http://agrcanelas.edu.pt/blogs/biblioteca/wp-content/blogs.dir/18/files/2012/11/As-Farpas-.pdf
Deixe um comentário