
Para a minha esposa nos 52 anos de casados
– A vida é a coisa mais saborosa que há. Não achas, Quiduchinha?
– Porque dizes isso, Manel?
– Então pensa comigo. Se eu não tivesse vida, não te tinha conhecido. Se não te tivesse conhecido, não tínhamos casado. Se não tivéssemos casado, não tinha quem me fizesse aquelas comidinhas boas que tu sabes fazer. Ah que até já me está a crescer água na boca!
– Mas, às vezes, para te saber bem a ti, sabe-me mal a mim.
– Então porquê, Quiduchinha?
– Porque tu és muito esquisito e nem tudo te serve. Além disso, tenho de pensar o que hei de cozinhar, tenho de ir fazer as compras e preparar as refeições, enquanto tu te estendes de papo para o ar no sofá com essas tuas filosofias.
– A propósito de sofá, ainda bem que falaste. Já me estava a esquecer que é hoje o Portugal – França. Ena, já são 8 horas! Desculpa lá, mas não posso continuar esta conversa, que te está a dar tanto prazer, tenho a certeza.
– Prazer, dizes tu?! E o que acontece às minhas novelas? Logo hoje que o magano está quase a agarrar-se aos beijos à jeitosa.
– Não fiques aborrecida, Quiduchinha, que as novelas não atam nem desatam. Vais ver que amanhã eles ainda estão no aquecimento.
– Falas bem, mas como queres que passe o serão? Achas-me capaz de estar duas horas a ver um grupo de cachopos aos empurrões uns aos outros atrás de uma bola? Isso tem alguma piada, Manel? A única coisa que se aproveita é ver aqueles rapazes musculados de perna ao léu…
– Ei, para aí! Que conversa é essa? Mau, mau!… Por acaso, não reparaste que já se acabou aquele bolo de chocolate tão bom, que tu costumas fazer? Podias aproveitar e…
– Deixa lá, estava a brincar contigo. Eu tenho é pena daqueles moços quando ficam a rebolar no chão. Até me dá vontade de chorar com pena deles. E dizes bem, vou fazer o bolo e livro-me desses apertos no coração.
(…)
– Pronto, já acabou o jogo. Perdemos, mas a culpa foi daquele bandido do árbitro. Se não fosse o penalti roubado a Portugal, quando o Ronaldo caiu na área, tínhamos ao menos empatado.
– Não digas mal do homem, Manel. Com certeza fez o seu trabalho o melhor que pôde.
– Trabalho?! Estava é comprado… Bom, mas isso já lá vai. Vingamo-nos cá na segunda volta.
– E agora, vai uma fatiazinha do bolo? Não sei se calhou bem desta vez.
– Qual não calhou?! Venha de lá um bom bocado. Ah como é bom viver aqui estendido no sofá! A propósito de estar estendido, e quando vamos para a praia? Sabe tão bem esticar-me na areia, sentir o calor do sol no corpo e ficar tão torradinho, que até os amigos me perguntam se fui de férias para o Brasil. E as bolas de Berlim… Que doces que são os dias de praia!
– Só se for para ti, porque para mim são bem amargos. Passo o tempo todo a tentar esconder-me do sol, mas não consigo evitar ficar toda queimada e cheia de borbulhas. Lembras-te de que, no ano passado, até tive de ir para o hospital?
– Mas o que se passa, Quiduchinha? Hoje dizes mal de tudo! Não te sabe bem a vida que tens?
– Sabe, Manel, sabe-me muito bem a vida que tenho ao teu lado. Mas o que me sabe melhor é que, ao fim de mais de cinquenta anos de casados, ainda continuas a chamar-me querida, a querer andar na rua de mão dada comigo, a dar-me beijinhos, a fazer-me festinhas e… outras coisas que não digo.
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