
Comentário ao livro “APNEIA” de Tânia Ganho
Este livro é uma monumental denúncia dos inúmeros casos de violência familiar e conjugal que atormentam muita gente, especialmente mulheres e crianças, das dificuldades que se têm de enfrentar quando se toma a decisão de tentar sair dessa situação e da forma como a justiça trata estes casos, nomeadamente a proteção que não é dada à vítima ou a forma completamente errada como funcionam as instituições que deviam defender os direitos dos filhos destes casais. Infelizmente, é preciso, muitas vezes, que a vítima morra para que a justiça atue. Conhecem-se imensos casos de denúncia continuada e repetida, sem que as vítimas sejam levadas a sério ou sequer ouvidas por quem as devia defender.
Ao abordar o tema de uma forma extremamente realista, este livro pode não ser a leitura adequada para quem está a passar ou passou por uma destas situações e ainda não superou totalmente os traumas que sofreu. Pelo mesmo motivo, este meu comentário pode ferir a sensibilidade de algumas pessoas.
Feito este alerta, digo que é um livro que deve ser lido e meditado por quem faz as leis e por quem tem a missão de as aplicar, nomeadamente os juízes, os advogados, as comissões de proteção de menores, os magistrados do Ministério Público ou as polícias.
Deve também ser lido por quem tem familiares, vizinhos, colegas ou amigos em situação que podem configurar risco de violência familiar, porque ajuda a identificar sinais de que algo vai mal. Geralmente, as vítimas procuram esconder a situação, pelos mais variados motivos, o pior dos quais é o medo do abusador. Outros motivos para não ter coragem de mudar de vida são a falta de meios económicos para sobreviver sozinho, não querer que os filhos sofram com a separação dos pais ou até continuarem a amar o cônjuge, apesar de tudo. Por isso, há que estar atento aos sinais, como mudanças de comportamento, menor rendimento no trabalho ou nos estudos, respostas evasivas a perguntas incómodas ou justificação pouco convincente para hematomas, no caso de violência física. Não esqueçamos que a violência conjugal é hoje um crime público e qualquer pessoa pode denunciar às autoridades um caso de que tenha conhecimento.
Gostaria agora de dar uma pequena ideia da trama do romance, sem revelar nada que possa prejudicar a leitura. Adriana é uma jovem portuguesa ainda a trabalhar na sua tese de mestrado e pintora em ascensão; Alessandro é italiano e um alto quadro de uma multinacional. Alessandro viajava muito e Adriana, por vezes, nem sabia onde ele estava; aliás, pouco sabia da sua vida presente ou passada, enquanto ele conhecia a vida dela ao pormenor. Residiram em vários países antes e depois de nascer o seu filho Edoardo, acabando por se fixar em Lisboa. Alessandro dominava psicológica e financeiramente e ela deixava-se dominar. Pouco a pouco, foi infundindo nela terrores de toda a espécie, a propósito de tudo e de nada, convencendo-a de que era uma desequilibrada que fazia dramas por coisas sem importância. Até que ela não aguentou mais e saiu de casa com o filho, na altura com cinco anos de idade.
Começou então um processo em que os problemas com o divórcio nada eram comparados com a estratégia que Alessandro montou para tornar a vida de Adriana num inferno. Para o conseguir, contou com a colaboração de advogados sem escrúpulos, de uma justiça que funciona mal e de uma pressão sobre o filho, cujo objetivo era destruí-la a ela através da criança. Apesar das evidentes sevícias sobre o filho, o Tribunal continuava a não ver motivos para acabar com a guarda partilhada. Por outro lado, Adriana temia que a sua mais pequena falha podia ser interpretada como tentativa para tirar ilegitimamente o filho ao pai, ou ser interpretada como prova de ser uma má mãe, sem condições para criar o filho. Assim se desenvolve a tragédia em ritmo crescente ao longo das quase 700 páginas do livro, acabando da pior forma possível.
Poderemos dizer que é uma história demasiado dramática, um repositório do pior que pode acontecer nestas circunstâncias, que não há homens que reúnam tanta maldade numa só pessoa, que nenhum divórcio é tão complicado na Justiça como este foi. Talvez, mas penso que o objetivo da autora foi fazer uma súmula das muitas situações que acontecem em casais desavindos que acabam em litígio. Mas quem poderá afirmar que o sofrimento das pessoas que passam por estas situações está aqui exagerado?! Como pode medir-se o tamanho do sofrimento de uma mulher maltratada, de uma criança abusada, de uma mãe que vê um filho nascido das suas entranhas sofrer, sem nada poder fazer para o salvar?!
Gostei da escrita usada por Tânia Ganho. São capítulos curtos, por vezes, mesmo muito curtos, quase como batimentos de um coração retalhado pelo sofrimento. Com frases singelas, curtas, quase telegráficas, por vezes.
Sofri muito na companhia de Edoardo e Adriana, senti-me por vezes numa espécie de apneia e com necessidade de parar a leitura para respirar um pouco, mas a raiva que o livro passa ao leitor não me permitia abandoná-los à sua sorte. A redenção final de Edoardo e Adriana foi também a minha redenção. Leitores, não desistam, vale a pena ler até à última linha! E acreditem que ficarão muito mais sensibilizados para o flagelo que é a violência doméstica.
Deixe um comentário