
Comentário ao livro “NAUFRÁGIO” de João Tordo
Esta é a história de vida de um homem naufragado e das vidas que ele arrastou consigo para o abismo. Perante a iminência do afogamento, só lhe resta tentar manter-se à tona da água e esperar que alguém lhe lance uma boia e o salve da morte quase certa. De facto, alguém lhe vai deitar a mão e restituir a vida, mas é a última pessoa de quem ele podia esperar esse gesto: justamente a primeira que ele tinha atirado à água e julgava estar há muito afogada. Será possível existir alguém assim?
Claro que o parágrafo anterior é uma metáfora do tema do novo romance de João Tordo, que foi uma das leituras das minhas férias neste verão. A história tem como protagonista um escritor ao qual a inspiração faltou e começa assim: “Faz agora mais de dez anos que não escrevo.”
Na verdade, depois de publicar cerca de quinze romances que foram um sucesso, não foi capaz de escrever uma só linha. No início, caiu em depressão e chegou a pensar em suicídio. Ia fazer cinquenta anos e não via perspetivas de futuro. Mas acabou por se acostumar à ideia e passou a encarar a situação como uma forma de libertação. Agora era livre e podia fazer aquilo para que nunca tinha tido tempo: nadar, passear pelo campo, levantar-se à hora que lhe apetecesse, tocar a sua guitarra. Para que servem as honrarias? Nada se pode levar para a cova, nem o Prémio Nobel! Passaram cinco anos e começou a beber mais do que antes; arranjou uma namorada com metade da sua idade. Afinal, não era um condenado!
Mas lá diz o ditado que um mal nunca vem só e a vida prega-nos partidas. Um cancro na bexiga, inesperado como todos os cancros, retirou-lhe a felicidade, o cabelo, a capacidade de fazer sexo. A namorada abandonou-o. Mas o pior ainda estava para vir. Quando conseguiu controlar o cancro, embora com sequelas para o resto da vida, surgiu no Twitter uma acusação de abuso sexual.
Estávamos em 2017, o movimento #MeToo atravessou o Atlântico, chegou a Portugal e o malogrado escritor Jaime Toledo foi a primeira vítima. Atrás da primeira, apareceram mais algumas denúncias e o passado voltou ao presente da forma mais devastadora que ele podia imaginar. Como vai ele reagir? Alguém o vai apoiar ou será abandonado por todos, considerado um predador do pior calibre, um mulherengo incorrigível? Será ele capaz de dar a volta por cima e sobreviver ao escândalo? Voltará a escrever? Claro que a vida não tem só uma face e há sempre alguém disposto a dar a mão aos caídos em desgraça. E, na maioria das vezes, o apoio vem de onde menos se espera e só está disposto a ajudar quem tem menos dever de o fazer.
Como de costume, João Tordo apresenta uma história muito bem delineada e desenvolvida. Constrói um leque de personagens bem caracterizadas que o leitor consegue facilmente reproduzir na sua imaginação, o que torna a leitura muito agradável e fácil de seguir, mesmo quando se trata de uma história angustiante, como é o caso. Aliás, em todos os seus romances, João Tordo apresenta, por regra, personagens sofredoras, deserdados do destino, mas que o autor eleva e redime, cativando o apoio do leitor que se torna, assim, um aliado na sua reabilitação. É que os maus não são demónios nem os bons são anjos. Todos somos humanos e temos um lado bom que merece a nossa solidariedade e importa realçar.
O tema dos abusos sexuais continua na ordem do dia. Hoje, mais do que nunca, o impulso da sociedade é exaltar o mal e escamotear o bem. Basta passar os olhos pelas redes sociais para ver como as pessoas são cruéis e condenam na praça pública os infelizes que têm o azar de ser denunciados, quantas vezes injustamente. Os órgãos da comunicação social, na sua ânsia de ganhar audiências, colaboram e embarcam no esquema, sem fazer suficiente confirmação e sem ouvir todas as partes. O tribunal da opinião pública é feroz e capaz de destruir rapidamente a reputação de qualquer um, justa ou injustamente. Hoje, este tribunal é capaz de destruir políticos, dirigentes de empresas, responsáveis religiosos, artistas, qualquer cidadão comum. Basta ter um inimigo com um perfil numa rede social.
Por outro lado, ninguém pense que pode fazer tudo o que lhe apetece, que pode magoar os outros a seu bel-prazer, porque a verdade vem sempre ao de cima como azeite e, hoje, é cada vez mais fácil denunciar e ser denunciado. O importante é que as vítimas de qualquer tipo de abuso na sua dignidade tenham a coragem de não ficar caladas, seja pedofilia, abuso, violência doméstica, ou qualquer outro. Felizmente, as impunidades dos que se julgam intocáveis, que podem fazer tudo e só têm direitos estão a ser cada vez mais raras.
“Naufrágio” foi uma boa leitura para este verão, que recomendo.
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