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Chamo-me Sebastião Barata e resido em Lisboa. Tenho 79 anos e leio desde muito novo. Uso a minha grande biblioteca para fazer vídeos e áudios que divulgo nas minhas redes sociais. Sigam-me!

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Comentário ao livro “GOA OU O GUARDIÃO DA AURORA” de Richard Zimler

Este é o segundo volume do “Ciclo Sefardita” sobre a família Zarco, iniciada com “O Último Cabalista de Lisboa”, cujo comentário já aqui deixei há algum tempo, que descreve o horroroso pogrom do domingo de Páscoa de 1506, no qual foram queimados na Praça do Rossio em Lisboa milhares de cristãos-novos, acusados de continuarem a praticar secretamente a religião proibida em que tinham sido criados. Em “O Último Cabalista de Lisboa” conta-se que Berequias Zarco se fixou com os seus familiares sobreviventes na Turquia e aí escreveu “O Espelho que Sangra”, onde descreve os acontecimentos trágicos daquela semana de terror, cujo manuscrito a família guarda religiosamente e transmite de geração em geração.

Em “Goa ou o Guardião da Aurora” vamos encontrar o seu neto Berequias Zarco, que reside com a sua esposa e dois filhos em território hindu, mas muito próximo de Goa, e se dedica a fazer iluminuras muito apreciadas pelo sultão da região. Tem um irmão mais novo, Isaac, que vive em Goa e é um rico comerciante que importa e exporta para Portugal; casou com uma mulher cristã e vive perfeitamente integrado na sociedade goesa. A Inquisição está no auge da sua força nos territórios portugueses da Índia e faz enormes estragos entre a população de origem judaica, mas também de origem hindu, que são forçados a converter-se ao cristianismo, como condição para viverem e trabalharem no território português, mas são facilmente acusados de heresia ou apostasia, torturados, julgados e muitas vezes queimados em “autos de fé”.

Numa das suas visitas aos familiares em Goa, Berequias Zarco é preso pela Inquisição, vindo a morrer na prisão em condições que deixo para lerem no livro. Logo de seguida, é preso o seu filho Tiago Zarco, sob a mesma acusação. É acusado e torturado, mas adota uma estratégia de simulação de conversão, para evitar ser morto. Assina um documento com uma longa lista de crimes, declara-se arrependido e é batizado. Mas não evita ser condenado a seis anos de prisão em Portugal, para onde embarca. Cumpre pacientemente a sua pena e, inteligente que era, estuda os evangelhos, faz amizades e prepara estratagemas para se vingar dos seus carrascos de Goa.

Regressa à Índia, com o firme propósito de descobrir quem o denunciou à Inquisição e se vingar. Mas encontra tudo muito mudado. Efetivamente a vingança sobre os seus carrascos resultou, mas não vai conseguir o seu principal objetivo, que é castigar quem o denunciou; consegue descobrir quem foi, mas a vingança não vai ser possível. Na sua família, alguns estão mortos e os outros irreconhecíveis. Encontra inimigos onde esperava encontrar amigos e vice-versa. O pouco que resta do seu passado se encarrega ele de destruir.

Por sugestão de um amigo, Tiago Zarco decide passar ao papel o relato da sua odisseia. Por isso, a história é toda escrita pela sua boca na primeira pessoa. Mas como vai sobreviver sozinho e cheio de remorsos pelo rasto de mortes e destruição que deixou no seu caminho?

Como é habitual nos livros de Zimler, os acontecimentos sucedem-se num ritmo vertiginoso, a trama tem um cariz policial que prende a atenção do leitor, as pessoas, os lugares e os acontecimentos são caracterizados com muito rigor, fazendo-nos imaginar no centro da história e a viver os acontecimentos descritos. O caráter histórico do tema também desperta a curiosidade do leitor, para querer saber mais sobre o Estado Português da Índia naquele final do século XVI, quando o nosso país estava sob o domínio dos reis de Espanha.

Outro pormenor interessante é a sugestão que me pareceu ressaltar desta história. É que todas as religiões têm mais fatores de união do que de desunião. Cristãos ou judeus, muçulmanos ou hindus, acreditando numa só vida na Terra ou acreditando na reencarnação, todas assentam em princípios que procuram conduzir a humanidade para a prática do bem, para a amizade, para a concórdia, para o perdão, para a paz. Porquê guerrearem-se mutuamente? Porquê tantas perseguições e tantos milhões de mortos ao longo dos séculos, por causa da religião de cada um? Não faz sentido.

 

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