
Comentário ao livro “O TERCEIRO CHEGA EM MAIO” de António de Macedo
Como amante de fantasia, nomeadamente de sagas medievais baseadas em lendas e crenças esotéricas, cabalísticas e semelhantes, ando com vontade de ler o romance “Lovesenda ou o Enigma das Oito Portas de Cristal” de António de Macedo, publicado em 2017, alguns meses antes da sua morte, mas tal ainda não me foi possível. Surgiu agora este livrinho de contos da sua autoria e foi a oportunidade de matar a curiosidade sobre a escrita deste português que é conhecido mais como cineasta, mas foi também escritor, dramaturgo, contista, ensaísta, especialista em questões de esoterismo e amante de ficção científica, terror, fantástico e géneros semelhantes.
“O Terceiro Chega em Maio” é uma antologia de oito contos selecionados pelo autor, seis dos quais saíram entre 1997 e 2012 em publicações diversas, mas os contos “Uma História Romântica” e “Teia de Enganos” são inéditos e viram a luz do dia neste volume. São contos com temáticas muito variadas e enquadráveis em vários géneros, desde o fantástico e a ficção científica, ao horror e ao absurdo, passando pelo esotérico e o apocalíptico.
O primeiro, intitulado “Efeitos de Maré”, procura resolver a questão da poluição de uma forma que contenta os múltiplos interesses envolvidos. É uma história bastante irónica, onde cada invenção resolve um problema, mas cria outro que vai ser resolvido por nova invenção; será possível sair deste círculo vicioso?
Misto de policial e de hermético, “A Condessa Preguiçosa” apresenta-nos um grupo de personagens que não dormem para proteger a humanidade dos ‘ladrões’ que nos roubam a capacidade de evolução enquanto dormimos. Começa na atualidade, mas recua ao tempo da Rainha D. Maria I, mostrando-nos uma galeria de senhoras da Nobreza que, ao longo dos séculos, foram consideradas preguiçosas ou, no mínimo, distraídas e apáticas; mas não haveria outra razão para se arrastarem sonolentas pelos palácios ao longo do dia?
“Entre Horizontes” mostra uma empresa que se dedica a aproveitar as enormes capacidades dos biliões de neurónios do cérebro humano, se for libertado das tarefas de gestão das múltiplas funções do nosso corpo, que absorvem a maior parte dos recursos cerebrais. Cruzam-se interesses científicos com preocupações políticas, militares e religiosas.
“Sereia dum Mar sem Fim” inspira-se na “Mensagem” de Fernando Pessoa e compõe uma interessante fábula sobre o Quinto Império, no sentido civilizacional que lhe é dado pelo poeta. Assim, os descobrimentos portugueses seriam o início da construção desse Império que irá sobrepor-se aos quatro anteriores.
Deus tem uma mão direita que é a da Misericórdia e uma mão esquerda que é a Justiça, mas tem uma 2ª mão esquerda, a que mais devemos temer. Este é o tema de “A 2ª Mão Esquerda de Deus” que se passa no Egipto, envolvendo cristãos coptas e muçulmanos e faz uma subtil viagem entre o passado, o presente e o futuro. O título da coletânea é a transcrição de uma frase deste conto.
“Uma História Romântica” inspira-se em ‘Alice no País das Maravilhas’ e apresenta-nos um curioso jogo de espelhos, onde as personagens espelhadas interferem na vida social e sentimental das correspondentes personagens da vida real. Este conto é especialmente interessante, porque as personagens do outro lado do espelho tomam atitudes inversas às do lado de cá.
“A Conjura” é uma história muito bem construída, onde, em camadas sucessivas, vemos realidades que se sobrepõem num ritmo alucinante; partindo do assassínio do rei D. Carlos em 1908, passa perante o leitor a 1ª República, o regime de Salazar e a Revolução do 25 de Abril, completamente reescritos. Vemos a hipótese de o atentado não ter acontecido, mas também ter acontecido ou ter acontecido mais tarde.
Finalmente, “Teia de Enganos” é uma agradável história escrita ao estilo das ‘Mil e Uma Noites’, cuja trama se passa em Coimbra sob o domínio muçulmano. Gira à volta de uma formosa princesa que recusa a pretensão dos mais ilustres e belos príncipes à sua mão, o que faz o seu pai perder a paciência e condená-la a ser supliciada nas masmorras, o que ela aceita resignadamente. Mas ela tem um segredo inconfessável que vai surpreender o leitor e fazê-lo terminar a leitura do livro com um sorriso nos lábios.
É difícil afirmar qual é o meu conto preferido, porque gostei de todos por motivos diferentes. A ter de escolher, proponho a leitura de “Entre Horizontes” e “Uma História Romântica”, talvez os mais difíceis, mas, por isso, os mais desafiantes. Como fã do género e de António de Macedo, aceito que haja quem tenha opinião diferente ou não aprecie nenhum.
Este livro tem outro ponto de interesse: como são contos que cobrem os anos de 1997 até à morte do autor, permitem-nos apreciar a evolução do seu pensamento e da sua escrita.
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