
Há vários anos que o Dr. Serafim Soares lhe dizia:
– A senhora devia levar o garoto à praia todos os anos uns dias no verão. É o melhor remédio para os problemas de garganta que tem. Talvez conseguíssemos evitar ter de o operar às amígdalas.
Genoveva trabalhava na fábrica, mas ganhava o salário mínimo e o dinheiro era pouco, especialmente desde que o marido a abandonara. O que lhe valia era o que tirava da hortinha que tinha nas traseiras da sua casa. A chefe da sua secção bem lhe dizia:
– Pensa no garoto, Genoveva. Aparece aqui sempre tão amarelento quando vem da escola. Se não fazes alguma coisa por ele, ainda para aí te morre.
– Mas o que hei de fazer, dona Rosa. O médico bem diz que o leve à praia, senão vai ter de o mandar operar. Mas eu não tenho dinheiro para a operação, quanto mais para ir gastar em férias.
Quando casaram, a tia Marquinhas que morava em Lisboa lá para a zona de Alcântara, convidou o jovem casal a ir à capital e terem uns dias de praia. A sua prenda de casamento seria proporcionar-lhes esta lua-de-mel. Foram poucos dias, mas Genoveva nunca mais os esqueceu. Depois de almoço, o tio Luís que era guarda-freio da Carris, levava-os no elétrico até ao fim da linha em Algés. Ficavam por lá umas horas estendidos na areia, até apanharem o elétrico outra vez ao fim da tarde.
Nesse tempo, o seu Adriano era atento e carinhoso. Como mudou depois, especialmente quando o garoto nasceu. Trabalhava na pedreira agarrado todo o dia ao martelão, vinha sempre muito cansado e mal disposto. Um dia, houve um rebentamento de dinamite que correu mal. Morreu o manobrador dos explosivos e outros operários ficaram feridos, sendo Adriano um deles. Depois de sair do hospital, onde esteve internado por conta do seguro, não quis trabalhar mais nas pedras. Emalou uma trouxa e disse que ia para França. Quando estivesse a trabalhar, chamava a família. Nunca mais deu notícias.
Férias foi coisa que Genoveva nunca teve. Mar foi coisa que nunca tornou a ver depois da lua-de-mel. Se antes não podia gozar, muito menos depois do seu homem ter abalado.
Nesse ano, a chefe Rosa passou o inverno a convencê-la a tirar uns dias para ir à praia:
– Não vês como o teu Joãozinho anda? Outra vez sempre cheio de febre e a tomar remédios. Há quem alugue casas baratas. As condições não serão as melhores, mas proporcionas aquele ar do mar ao teu filho e és bem capaz de poupar em remédios no inverno o que vais gastar na praia no verão. Fala com o ti Joaquim que vai todos os anos para a Figueira. Dei uma palavrinha à ti Conceição e eles já estão de saber.
Finalmente, lá se deixou convencer. O tio Joaquim, que era reformado da tropa e ia todos os anos passar férias na Figueira da Foz, ofereceu-se para lhe arranjar casa. Telefonou para um antigo camarada que vivia lá, contou-lhe a situação e lá conseguiu uma casinha barata. O outro disse-lhe que, por aquela renda, não estivessem à espera de que fosse grande coisa.
– O meu camarada conseguiu arranjar uma casa boa para ti – contou ele à Genoveva todo contente de poder ajudar. – Diz que não é nada de luxo, mas duas semanas mal passadoras são. O importante é que o Joãozinho tenha praia e venha de lá melhor, para passar bem o inverno.
No dia aprazado, o sargento Joaquim e a sua esposa Maria da Conceição, que iam sempre para a praia no seu carro, deram-lhes boleia e lá foram os quatro para férias. O João ia eufórico e nem deu conta dos 200 km percorridos, mas Genoveva ia um pouco apreensiva. Seria o que Deus quisesse. Como lhe dizia a dona Rosa, o importante era a saúde do seu menino.
De facto, a casa era pequena. Ficava num pátio, com outras casas semelhantes ao redor. A porta, que tinha fitas plásticas coloridas para dificultar a vida às moscas, dava acesso direto à cozinha, onde havia um lava-louças com uma torneira saída da parede, um pequeno fogão a gás em cima de uma bancada com uma porta e uma gaveta, uma mesinha com duas cadeiras e um armariozito suspenso na parede, com uma porta de vidro onde assomavam alguns copos e pratos. Não havia janela. Só um postigo envidraçado na porta, por onde entrava uma reduzida claridade. Para se ver bem, era preciso manter a porta aberta.
Ao fundo da cozinha, outra porta dava acesso a um pequeno quarto. Este recebia um pouco mais de claridade, mercê de uma pequena janela, que dava para um quintal, onde havia um galinheiro, uma jaula com coelhos e uma pequena horta, onde se destacavam alguns pés de couve com mais de um metro de altura.
Casa de banho não havia. Mas existia uma pequena divisão ao fundo pátio, a que a senhoria chamava pomposamente o “banheiro” e que servia os moradores de todas as casinhas do pátio. Não havia lavatório, mas tinha uma sanita e um chuveiro, sob o qual jazia um estrado de ripas de madeira, um pouco embolorecidas. Ao lado do “banheiro”, encontrava-se um velho tanque de cimento, que recebia água de uma torneira e esgotava para o chão de terra batida. Do muro saíam duas barras de ferro ferrugentas ligadas por um arame, que eram o estendal comum de todos os moradores do pátio.
Embora inquilina por 15 dias, Genoveva ficou desapontada. Mas lembrou-se das palavras do tio Joaquim de que “duas semanas mal passadoras são” e, de facto, a renda não merecia melhor acomodação. Prometeu a si mesma nunca mais alugar casa sem a ver primeiro.
O João é que não era da mesma opinião e dizia:
– Gosto muito desta casa, mãe. Não é tão boa como a nossa, mas tem a coisa mais linda do mundo: o mar, que eu nunca tinha visto”.
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