
Comentário ao livro “A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado” de Gonçalo M. Tavares
Esta foi a primeira que vez que li um livro de Gonçalo M. Tavares. Não que não desejasse tê-lo feito antes, mas diversas circunstâncias dificultaram que tal acontecesse. O início desta nova série despertou-me o interesse e não esperei mais para ir comprar o livro. Após a sua leitura e releitura (algumas partes várias vezes), ainda não sei dizer exatamente algo de definitivo sobre o livro. Acontecerá sempre isto aos leitores das obras de Gonçalo M. Tavares?
Não desejando protelar mais a apresentação de uma apreciação ao livro, embora talvez não o devesse fazer ainda, aqui vai a que poderia chamar de primeira e superficial análise, sem prejuízo de vir mais tarde a refazer a minha opinião. Não me esqueci de que o meu objetivo é fornecer pistas aos candidatos à leitura do livro que lhes permitam decidir-se por avançar ou não para a leitura.
Neste pressuposto, começaria por dizer que o livro pode ter vários níveis de leitura. O primeiro seria uma leitura literal e básica do texto. Desde já aviso o leitor de que, ao fazê-lo assim, corre dois riscos: desistir ao fim de duas ou três páginas (se for uma pessoa com fraco sentido de humor), ou continuar a lê-lo como se fosse um repositório de piadas do tipo humor negro que não conduzem a um fim lógico, e retiraria da leitura que se trata de um nonsense bem construído e com alguma graça. E a que conclusões chegaria o leitor? Que o destino é cruel, que os maus meios é que conduzem a bons fins, que não há pessoas honestas, mas parvas, e que os loucos é que são os verdadeiros sãos e dominam a multidão.
O segundo nível de leitura é enfrentar o livro como uma profecia, ao jeito do Apocalipse, do Bandarra ou do Nostradamus. Como todos os livros proféticos, os textos apresentados apontariam para um futuro incompreensível para o leitor, porque, logicamente, não se pode conhecer o que ainda não aconteceu, especialmente quando apresentado através de imagens vagas com possíveis diferentes interpretações que só no futuro encontrarão sentido, depois de deixarem de ser o sonho de um visionário e se concretizarem no mundo físico. Neste nível de leitura, o que significa, num futuro enquadramento social e político, a Mulher-Sem-Cabeça, o Homem-do-Mau-Olhado, o Homem-Mais-Alto ou a Mulher-Ruiva? Que papel desempenharão um tal de Dr. Charcot com a sua máquina de curar loucos, ou o louco Ber-lim que não é curado? O que são as Duas-Torres-de-Babel, umas das quais cai com o simples atirar de uma pedra (dois sistemas políticos em confronto)? etc. A especulação não teria fim…
Uma terceira leitura (será a última?) que me parece a correta e a que o autor teria em mente, é que se trata de um livro de História, uma História do século XX, escrito sob a forma de uma fábula, ou talvez de uma parábola como as que Jesus contava aos seus discípulos e terminavam sempre com a expressão “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (Mc 4,9). Talvez Gonçalo M. Tavares escreva como Ele, para que “ao olhar, olhem e não vejam; ao ouvir, ouçam e não compreendam, não vão eles converter-se e ser-lhes perdoado” Mc 4,12). De facto, o século XX foi pródigo em acontecimentos imperdoáveis que não devem ser claramente proclamados, não vão os seus ideólogos renascer das cinzas. Vejam-se os nacionalismos e os extremismos a ganhar novamente força nos tempos mais recentes. Será que o leitor atento vai conseguir identificar os acontecimentos a que o autor se refere? Será que se refere a um ou a vários dos grandes temas que dominaram o século? Uma interpretação possível que me pareceu a mais lógica, é a implantação do marxismo na Rússia, a queda da dinastia Romanov, a criação e expansão da URSS, as suas atrocidades, a sua expansão e a sua queda. Poderá referir-se ao nazismo, com as mesmas fazes de nascimento, expansão e queda. Será que terá que ver com a União Europeia, cuja queda muitos já profetizam?
Seja qual for a interpretação que fizermos, certo é que muitos mitos foram criados nos últimos 100 ou 200 anos. Ao falar de mitologia, podíamos também apontar a tecnologia, o poder das máquinas ainda em crescimento e o seu provável domínio sobre a sociedade humana. Nesta visão, estaríamos não só a olhar para o passado, mas também para o futuro. Aonde nos conduzirá o progresso? Nesta perspetiva, quem / o quê será a Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado?
Fico rendido à escrita de Gonçalo M. Tavares e compreendo a razão de ser um autor tão aplaudido, tão premiado, tão traduzido e tão estudado. Reconheço que, até agora, me parecia um sucesso exagerado, fruto talvez de um marketing eficaz (não há tanta gente a queixar-se de não ter o reconhecimento que merece?!), mas declaro-me vencido: o génio brilha por si e é visível ao longe!
Publicado no Segredo dos Livros em 22 de maio de 2017
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