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Comentário ao livro “Contos” de Beatrix Potter

Este livro contém 23 contos, todos os que Beatrix Potter escreveu, ilustrou e publicou. Estão por ordem da data em que foram publicados. O primeiro é “O Conto do Pedrito Coelho” de 1902 e o último é “O Conto do Porquinho Robinson” de 1930. Portanto, uma média de quase um conto por ano. Mas houve anos em que escreveu dois ou três contos, especialmente quando era nova, e anos em que não escreveu qualquer conto, quando já não era tão nova e lhe faltava o tempo para desenhar os seus queridos bichinhos. Por exemplo, entre a publicação de “As Rimas Infantis da Penélope Pé-de-Salsa” e “O Conto do Porquinho Robinson”, os últimos, passaram oito anos.

Quando era criança, Beatrix tinha vários animais de estimação, de preferência muito invulgares: ratos, coelhos, um ouriço e alguns morcegos, assim como uma coleção de borboletas e outros insetos que desenhava e estudava. A família costumava passar as férias no campo e ela adorava apreciar a natureza de perto: as montanhas, os rios, os animais, as plantas, que desenhava e descrevia nos seus diários. Quando começou a ganhar dinheiro com os seus livros, comprou uma quinta, onde foi feliz ao lado dos seus bichos. Os animais foram a principal inspiração para os seus maravilhosos contos que têm divertido crianças de todo o mundo no último século.

Este livro, editado pela Relógio D’Água em 2017, reúne, como já disse, todos os contos de Beatrix Potter. Mas também as ilustrações originais, todas da autora, a maioria delas a cores, embora algumas a preto e branco. O facto de estarem pela ordem em que foram publicados ajuda a seguir as histórias, porque, embora sejam todas independentes, alguns animais entram em várias histórias. Por exemplo, o Pedrito Coelho que, na primeira história, é uma criança, aparece mais tarde já adulto e com filhos.

Uma curiosidade que diz muito sobre as preferências de Beatrix Potter desde criança é que há mais animais selvagens nas suas histórias do que animais domésticos, como coelhos, ratos, rãs, ouriços, texugos, raposas, esquilos ou aves, embora apareçam cães, gatos, porcos, patos ou gansos. Mas mesmo estes são retratados quase sempre como selvagens, raramente interagindo com humanos. A propósito de humanos, estes são quase sempre os vilões da história, especialmente se forem homens adultos.

Um pormenor importante deste livro é que cada história é precedida de uma explicação sobre os motivos que levaram a autora a escrevê-la ou foram a sua fonte de inspiração. Por exemplo, “O Conto do Berto Discreto” em que o herói é um esquilo, foi escrito a pensar nos seus leitores americanos, quando Beatrix já era famosa e tinha muitos leitores do outro lado do Atlântico. Costumava dedicar os contos a crianças amigas, mas este foi “Para muitos amiguinhos desconhecidos, incluindo a Monica.” Aliás, quem lhe escreveu a pedir a dedicatória de um conto era colega de uma prima dessa Monica, que deve ter tido uma grande surpresa.

Mas a história mais interessante de um conto é a de “O Conto do Pedrito Coelho”. Como disse, a família de Beatrix Potter costumava passar as férias no campo. Quando era jovem, esta escrevia de lá cartas ilustradas para pessoas amigas, incluindo os filhos da sua antiga governanta e amiga, Annie Carter Moore, principalmente para o seu filho mais velho, Noel, que adoecia com frequência. Em setembro de 1893, Beatrix ficou sem assunto para escrever na carta e resolveu contar ao menino uma história sobre “quatro coelhinhos que se chamavam Flopsy, Mopsy, Cottontail e Peter” (Fofinha, Meiguinha, Caudinha-de-Algodão e Pedrito, na tradução portuguesa). Annie e os filhos gostaram muito da história do Pedrito rabino e das suas manas bem comportadas, e esta sugeriu-lhe que daria um bom livro infantil. A carta viria a tornar-se numa das cartas infantis mais famosas de sempre e foi a base da futura carreira literária de Beatrix Potter que, no entanto, só começou quase dez anos depois, porque nenhuma editora queria publicar a história. Uma arriscou e valeu a pena o risco, porque foi um enorme sucesso, tendo vendido 20.000 cópias desde que saiu no início de outubro de 1902 até ao Natal desse ano.

Por vezes, Beatrix retratava nos seus contos animais e pessoas verdadeiras, como, por exemplo, em “O Conto da Palmira Patarata”, onde aparece um desenho da esposa do caseiro da sua quinta a dar comida aos animais da capoeira, bem como o seu cão preferido. Até o desenho da Pata Patarata é de uma pata que existia da capoeira. Patarata era uma pata muito presumida que não queria dar os seus ovos a chocar a uma galinha, como era hábito. Por isso, fugiu para o campo, a fim de ali fazer ninho, pôr e chocar os ovos. Encontrou-se com um raposão matreiro e só não acabou como arroz de pato, porque César, o velho cão da quinta, desconfiou da marosca e foi lá com outros cães que deram uma grande surra ao raposo.

“Contos” de Beatrix Potter é uma das mais importantes coletâneas de contos para crianças de todos os tempos, merecedores de serem lidos ou ouvidos ler pelos filhos ou netos de toda a gente. Esta edição tem capa dura e o formato ideal para esse fim. Recomendo vivamente!

 

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