
“2084 O fim do mundo” é uma ousada distopia que é fácil para o leitor associar a “1984” de George Orwell e a “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, os grandes clássicos que nos mostram sociedades futuras, onde a vida dos indivíduos é controlada pelos detentores do poder, nos mais ínfimos pormenores. A diferença é que o tema é muito mais atual, pois este romance foi escrito no século XXI e a sua visão provocadora centra-se no pensamento e na ação dos extremistas islâmicos e também no controlo absoluto da sociedade preconizado pelos partidos e organizações extremistas cuja implantação está a crescer.
A história passa-se em Abistão, um vasto império teocrático que domina o mundo após uma guerra mundial devastadora. Neste regime, tudo é regido pela fé no deus único e incontestável, Yölah, e na proclamação de que o profeta Abi é o seu Delegado. Os preceitos de Yölah estão recolhidos no Gkabul, o livro sagrado, inspirado por deus a Abi. Não há passado, nem presente, nem futuro no Abistão, a noção de tempo não existe. Então porquê a referência a 2084, como o fim do mundo? Essa é a data da fundação do regime, ou seja, o fim do mundo atual, o fim do tempo.
O quotidiano dos habitantes é marcado pela vigilância constante, pela ausência de pensamento crítico e pela supressão total das memórias do tempo passado. O Bigaye tudo vigia, diversos comités, como os Cívicos, denunciam os mais pequenos desviantes, ninguém conhece mais território do que o bairro onde nasce, vive e vai semanalmente à mockba ouvir o mockbi. Mas o protagonista, Ati, inicia um percurso de dúvida e de descoberta, desafiando o sistema omnipresente que condiciona cada aspeto da existência. Será que vai conseguir sobreviver?
Os temas principais desenvolvidos na história são: totalitarismo e vigilância, pois Boualem Sansal apresenta uma sociedade muito semelhante a “1984”, onde o poder absoluto elimina a liberdade individual, controla desde a linguagem (a abilang) até à própria forma de pensar; a religião, que é usada como instrumento de opressão, situando-se no centro do poder e sendo usada para justificar a repressão e apagar a pluralidade cultural e histórica; a impossibilidade de recordar o passado, que, ao eliminar a memória e identidade, é uma estratégia do regime para impedir a resistência; mas o autor não esquece o tema da busca pela verdade, ao apresentar-nos o percurso de Ati como um indivíduo inquieto perante as verdades que lhe são impostas. A dúvida é retratada por Sansal como um ato de coragem e de humanidade.
Sansal utiliza uma escrita densa, por vezes deliberadamente opressiva, coerente com o clima sufocante de Abistão. A ambiguidade das descrições e o ritmo lento amplificam a sensação de labirinto e de desespero. O vocabulário inventado, quase ritualístico, com frequentes citações do Gkabul, o livro sagrado, contribui para a imersão no universo abistanês e reforça a alienação do leitor face ao mundo que conhece, aos valores da democracia e da liberdade.
“2084 O fim do mundo” não é apenas uma homenagem a Orwell; é uma crítica contundente ao fanatismo, ao conformismo e à facilidade com que sociedades podem abdicar da liberdade em nome de uma suposta segurança ou verdade absoluta. Neste tempo em que se discutem os limites da liberdade de expressão e a ascensão de extremismos, a obra de Sansal oferece-nos um aviso atual e universal.
Esta distopia desafia e incomoda o leitor, convidando à reflexão sobre o presente e o futuro. Boualem Sansal constrói um mundo que, sendo extremo, está assustadoramente próximo das nossas realidades e, certamente, teve em conta um pormenor que não podemos esquecer: o Islamismo é já a segunda religião com mais crentes e espera-se que venha brevemente a ser a primeira, mercê da elevada fecundidade das suas mulheres, face à sua maior implantação em países pobres. Claro que há bons e maus muçulmanos, como aliás nas outras religiões, mas tem uma maior taxa de fundamentalistas. Por tudo isto, “2084 O fim do mundo” é uma leitura obrigatória para quem procura compreender as ameaças contemporâneas à liberdade e à pluralidade, e um tributo à força do pensamento crítico.
A história passa-se em Abistão, um vasto império teocrático que domina o mundo após uma guerra mundial devastadora. Neste regime, tudo é regido pela fé no deus único e incontestável, Yölah, e na proclamação de que o profeta Abi é o seu Delegado. Os preceitos de Yölah estão recolhidos no Gkabul, o livro sagrado, inspirado por deus a Abi. Não há passado, nem presente, nem futuro no Abistão, a noção de tempo não existe. Então porquê a referência a 2084, como o fim do mundo? Essa é a data da fundação do regime, ou seja, o fim do mundo atual, o fim do tempo.
O quotidiano dos habitantes é marcado pela vigilância constante, pela ausência de pensamento crítico e pela supressão total das memórias do tempo passado. O Bigaye tudo vigia, diversos comités, como os Cívicos, denunciam os mais pequenos desviantes, ninguém conhece mais território do que o bairro onde nasce, vive e vai semanalmente à mockba ouvir o mockbi. Mas o protagonista, Ati, inicia um percurso de dúvida e de descoberta, desafiando o sistema omnipresente que condiciona cada aspeto da existência. Será que vai conseguir sobreviver?
Os temas principais desenvolvidos na história são: totalitarismo e vigilância, pois Boualem Sansal apresenta uma sociedade muito semelhante a “1984”, onde o poder absoluto elimina a liberdade individual, controla desde a linguagem (a abilang) até à própria forma de pensar; a religião, que é usada como instrumento de opressão, situando-se no centro do poder e sendo usada para justificar a repressão e apagar a pluralidade cultural e histórica; a impossibilidade de recordar o passado, que, ao eliminar a memória e identidade, é uma estratégia do regime para impedir a resistência; mas o autor não esquece o tema da busca pela verdade, ao apresentar-nos o percurso de Ati como um indivíduo inquieto perante as verdades que lhe são impostas. A dúvida é retratada por Sansal como um ato de coragem e de humanidade.
Sansal utiliza uma escrita densa, por vezes deliberadamente opressiva, coerente com o clima sufocante de Abistão. A ambiguidade das descrições e o ritmo lento amplificam a sensação de labirinto e de desespero. O vocabulário inventado, quase ritualístico, com frequentes citações do Gkabul, o livro sagrado, contribui para a imersão no universo abistanês e reforça a alienação do leitor face ao mundo que conhece, aos valores da democracia e da liberdade.
“2084 O fim do mundo” não é apenas uma homenagem a Orwell; é uma crítica contundente ao fanatismo, ao conformismo e à facilidade com que sociedades podem abdicar da liberdade em nome de uma suposta segurança ou verdade absoluta. Neste tempo em que se discutem os limites da liberdade de expressão e a ascensão de extremismos, a obra de Sansal oferece-nos um aviso atual e universal.
Esta distopia desafia e incomoda o leitor, convidando à reflexão sobre o presente e o futuro. Boualem Sansal constrói um mundo que, sendo extremo, está assustadoramente próximo das nossas realidades e, certamente, teve em conta um pormenor que não podemos esquecer: o Islamismo é já a segunda religião com mais crentes e espera-se que venha brevemente a ser a primeira, mercê da elevada fecundidade das suas mulheres, face à sua maior implantação em países pobres. Claro que há bons e maus muçulmanos, como aliás nas outras religiões, mas tem uma maior taxa de fundamentalistas. Por tudo isto, “2084 O fim do mundo” é uma leitura obrigatória para quem procura compreender as ameaças contemporâneas à liberdade e à pluralidade, e um tributo à força do pensamento crítico.
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