
“Les Fleurs du Mal” (As Flores do Mal) é uma coletânea de poemas de Charles Baudelaire publicada em 1857, que foi republicada de 1861 a 1868 em três versões sucessivas, enriquecidas com novos poemas. Considerada uma obra maldita, a coletânea foi esquecida e a sua reabilitação só ocorreu quase um século depois, em maio de 1949. Hoje, “As Flores do Mal” é considerada uma das obras mais importantes da poesia moderna.
Quando saiu a 1ª edição, a coletânea foi apreendida sob a acusação de “insulto à moral pública” e “ofender a moral religiosa”, e Baudelaire condenado a uma pesada multa. Seis poemas foram proibidos e não constaram nas edições seguintes. A edição que li, uma tradução premiada de Fernando Pinto do Amaral e publicada pela Assírio & Alvim, traz em anexo estes seis poemas.
A obra expressa uma nova estética em que a arte poética contrapõe uma visão trivial dos sentimentos humanos à mais inefável beleza. Exerceu uma influência considerável sobre poetas simbolistas posteriores, como Paul Verlaine, Stéphane Mallarmé e Louis Aragon.
Os poemas não foram reunidos ao acaso, mas estão articulados de forma metódica e segundo um desenho preciso. Na edição consolidada de 1861, Baudelaire incluiu 126 poemas, além de um prólogo excluído da numeração dos poemas e está dividida em seis partes: “Spleen e Ideal” (poemas 1 a 85), “Quadros Parisienses” (86 a 103), “O Vinho” (104 a 108), “Flores do Mal” (109 a 117), “Revolta” (118 a 120) e “A Morte” (121 a 126).
“Spleen e Ideal” apresenta uma avaliação intransigente do mundo real: uma fonte de aflição e de mal-estar (spleen – tédio), que em Baudelaire provoca um retraimento, mas também o desejo de reconstruir mentalmente um universo que lhe pareça viável. As três secções seguintes são tentativas de alcançar este ideal. O poeta afoga-se na multidão anónima da Paris onde sempre viveu (“Quadros parisienses”), aventura-se nos paraísos artificiais da bebida e das drogas (“O Vinho”) e procura prazeres carnais que se revelam fonte de encantamento, seguida de remorso (“Flores do Mal”). Este triplo fracasso leva à rejeição de uma existência decididamente vã (“Revolta”), que leva ao aniquilamento (“A Morte”).
Os temas principais são: o nojo pelo mundo real, sujeito ao pecado e ao tédio que aquele inspira; o masoquismo – prazer e sofrimento aparecem, na maioria das vezes, intrinsecamente ligados; a obsessão pela morte, explícita ou velada numa grande parte dos poemas. São frequentes outros temas, geralmente concretizadores daqueles temas principais: o pôr-do-sol, a noite, a lua, o sono, o sangue, o abismo, a fé, os cheiros, o mar, a água, ou o exotismo dos lugares remotos, entre outros.
Também a imagem da Mulher pontua toda a coletânea, seja como cúmplice, maternal, amante, vítima, seja como cruel, tirana, perversa, diabólica.
Baudelaire era apaixonado pela pintura. Como “pintor” de ideias, inventa imagens de grande força expressiva que deixam uma impressão duradoura na mente do leitor. Por vezes, a adição de um simples adjetivo é suficiente para transfigurar uma expressão comum numa coisa bela.
Baudelaire gostava de formatos curtos, favoráveis à condensação do seu pensamento. O facto de ter utilizado o soneto em mais de quatro em cada dez poemas realça essa caraterística. A principal exceção é o poema “A Viagem” que tem 36 estrofes divididas em 8 secções.
Quanto à métrica, sete em cada dez poemas são alexandrinos (12 sílabas métricas), um formato suficientemente grande para desenvolver os seus pensamentos. Mas há também muitos octossílabos (8 sílabas métricas), por vezes os dois formatos no mesmo poema.
Em resumo: “As Flores do Mal”, a obra-prima de Charles Baudelaire, é um marco fundamental da poesia moderna. Explora temas como o amor, a morte, a decadência, o tédio e o fascínio pelo proibido, revelando a dualidade da condição humana entre a busca pelo sublime e o mergulho no abismo. Os versos, carregados de musicalidade e imagens perturbadoras, onde o belo e o sombrio coexistem, desafiavam as convenções morais e literárias da época. Baudelaire, com uma linguagem refinada e inovadora, rompeu com os padrões românticos e inaugurou uma sensibilidade estética que influenciaria gerações de poetas simbolistas. A leitura de “As Flores do Mal” continua a ser uma experiência intensa e inquietante. Uma obra indispensável para quem deseja compreender o poder transformador da poesia e a profundidade do pensamento de Baudelaire.
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