
“Romanceiro da Inconfidência” é a principal obra da escritora modernista Cecília Meireles. Publicada em 1953, nela estão condensados os principais elementos da sua poética. É uma narrativa em versos rimados, construída sobretudo em redondilhas, que misturam o tom épico com o lírico, para prestar uma homenagem aos heróis que são sacrificados em nome da liberdade.
Na minha opinião, o título é claramente inspirado nos “romances” medievais que foram recolhidos, desde os anos vinte do século XIX até ao presente. São histórias em verso, que exaltam heróis, geralmente da época da cavalaria medieval, transmitidas oralmente por jograis, por poetas ambulantes, que se deslocavam de romaria em romaria, de feira em feira, se transmitiram de geração em geração e ficaram na memória do povo. Um exemplo muito conhecido desses romances é “A Nau Catrineta”.
“Romanceiro da Inconfidência” aborda a luta pela independência em finais do século XVIII no Brasil. Nesse movimento, Cecília alinha-se com outros escritores da sua época ao propor uma releitura crítica do projeto de literatura nacional inaugurado com o Romantismo.
Nos poemas que compõem a coletânea, a autora oferece um olhar mais íntimo e sensível sobre os protagonistas da “Inconfidência Mineira”, revelando as suas fragilidades, ideais e conflitos internos. Diferentemente de uma narrativa puramente histórica, a autora humaniza os “inconfidentes”, aproximando-os do leitor por meio da emoção e da reflexão.
A coletânea tem uma estrutura muito especial, em que os poemas estão ordenados por ordem cronológica, de modo a narrar as causas da rebelião, a sua preparação, denúncia e consequências. É estruturada em 85 romances (as partes narrativas), intercalados com 4 cenários (as descrições dos espaços físicos no qual a ação se passa) e 3 falas (em que a autora dá voz diretamente aos personagens).
A linguagem empregada em “Romanceiro da Inconfidência” é mais direta e acessível do que noutras obras da escritora, sem perder a densidade poética que caracteriza a sua produção poética. Essa escolha estilística reforça o propósito da autora de tornar a história nacional brasileira mais envolvente.
Para se entenderem melhor os poemas desta coletânea há que conhecer um pouco do que foi a “Inconfidência Mineira”. A Inconfidência foi um movimento desencadeado em 1789 que visava a independência de Minas Gerais, na sequência da cobrança de uma “derrama”, ou seja, de um novo imposto que a Coroa portuguesa tinha começado a fazer há alguns anos, para compensar a grande diminuição do ouro que ia do Brasil para Portugal. A Coroa tinha direito a receber um quinto de todo o ouro recolhido. Apesar de haver muita fuga e contrabando, a principal razão era que as minas estavam a esgotar-se e os próprios senhores da região de Minas estavam a empobrecer. Por isso, tentaram uma revolta contra os reis de Portugal, inspirados na recente independência dos Estados Unidos da América, apostados em fazer o mesmo no Brasil.
Mas a conjura foi descoberta, graças a denúncias, e os principais conjurados foram presos, levados para o Rio de Janeiro, julgados e condenados à morte na forca. O principal delator foi o coronel e também ele fazendeiro Joaquim Silvério dos Reis, para daí tirar benefícios pessoais, como poderão ver nesta passagem do romance 34:
Melhor negócio que Judas
fazes tu, Joaquim Silvério:
que ele traiu Jesus Cristo,
tu trais um simples Alferes.
Recebeu trinta dinheiros…
– e tu muitas coisas pedes:
pensão para toda a vida,
perdão para quanto deves,
comenda para o pescoço,
honras, glórias, privilégios.
E andas tão bem na cobrança
Que quase tudo recebes.
Todos os condenados, como eram muito ricos, conseguiram que a sua morte fosse comutada em degredo para as colónias de Angola e Moçambique. O único a ser enforcado foi o alferes Joaquim José da Silva Xavier, conhecido por o Tiradentes, considerado o chefe da rebelião e o único que não tinha bens suficientes para comprar a sua liberdade. Depois de morto, o corpo do Tiradentes foi desmembrado e as partes espalhadas pelas principais povoações de Minas Gerais, para desincentivar quem ainda tivesse ideias revolucionárias:
Pois agora é quase um morto,
partido em quatro pedaços,
e – para que Deus o aviste –
levantado em postes altos.
A autora demonstra grande sensibilidade ao abordar os dilemas humanos e políticos, tornando “Romanceiro da Inconfidência” uma obra indispensável para quem deseja compreender a história e a alma brasileira através da poesia.
Em suma, trata-se de uma obra que une o rigor histórico à beleza literária, reafirmando Cecília Meireles como uma das vozes mais importantes da poesia de língua portuguesa. O livro não só celebra a Inconfidência Mineira, mas também convida o leitor a pensar sobre o significado da liberdade e da justiça em qualquer época.
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