
Tarzan dos Macacos (no original, Tarzan of the Apes) é o romance que apresentou ao mundo a figura do “homem da selva” criado numa família de grandes símios e inaugurou uma das séries mais duradouras da literatura popular. A história apareceu primeiro na revista The All-Story em 1912, antes de ser lançada em volume em 1914, e rapidamente se tornou um fenómeno de massas, com dezenas de sequelas e incontáveis adaptações.
No final do século XIX, um casal de aristocratas ingleses é abandonado na costa ocidental de África por marinheiros revoltosos que tomam o navio; conseguem construir uma cabana na selva, mas morrem ao fim de um ano, deixando um filho recém-nascido. O bebé é acolhido e alimentado por Kala, uma fêmea de símio que tinha acabado de perder a sua cria, e cresce entre o seu grupo, aprendendo a sobreviver num mundo regido pela força, pelo instinto e por uma hierarquia rígida. Mais tarde, ao descobrir a cabana dos pais e alguns livros, começa – de forma improvável, mas que resulta muito bem na narrativa – a aprender sozinho a ler e a escrever, abrindo uma fenda entre a sua vida “selvagem” e a consciência de que existe outra forma de estar no mundo. A chegada de novos visitantes europeus à costa desencadeia em Tarzan o choque com a linguagem, a violência e as regras sociais do “mundo civilizado”, assim como a atração pelo sexo oposto.
Burroughs constrói Tarzan como uma figura bipolar: fisicamente moldado pela selva e, ao mesmo tempo, descrito como herdeiro de uma linhagem europeia que “explicaria” a sua inteligência, autocontrolo e capacidade de liderança. A adoção do bebé Tarzan por Kala dá ao romance um núcleo afetivo (quase doméstico) que contrasta com a brutalidade do grupo liderado por Kerchak, onde o pertencimento precisa de ser conquistado. Quando surge Jane Porter, a primeira mulher branca que Tarzan vê, a narrativa desloca-se para o drama do reconhecimento: não apenas o encontro amoroso, mas a disputa entre os dois mundos — o da selva, onde Tarzan é soberano, e o da sociedade, onde é uma anomalia.
O cerne do romance é a pergunta “o que faz de alguém humano?” – formulada, porém, em termos típicos do início do século XX. A história oscila entre a ideia de que o meio (neste caso, a selva) forma o corpo e os instintos, mas a hereditariedade determina o carácter, dando a Tarzan uma superioridade “natural” que o distingue quer dos símios quer dos outros grupos humanos (os negros) que encontra. Ao mesmo tempo, a sua autoaprendizagem da leitura é um símbolo: Tarzan apropria-se de uma língua escrita sem pertencer ainda ao mundo que ela representa – um detalhe inverosímil, mas eficaz como metáfora de desejo de identidade e de acesso ao conhecimento.
Como produto da ficção pulp, o livro aposta num ritmo rápido, com episódios encadeados para manter a tensão: caçadas, confrontos físicos, raptos, fugas e reviravoltas sucessivas. A prosa é direta e funcional, interessada mais no movimento e na eficácia dramática do que na subtileza psicológica.
“Tarzan dos Macacos” traz um lastro ideológico evidente: a África como cenário exótico e indiferenciado, e uma hierarquia racial implícita na forma como o romance associa “civilização” e superioridade moral às personagens europeias. Lê-lo hoje obriga, tanto como à busca de entretenimento e aventura, a ter em conta o contexto em que o livro foi escrito: o imaginário imperial do seu tempo e as fantasias ocidentais de pureza, força e domínio do homem branco.
Em resumo: “Tarzan dos Macacos” continua a ser uma leitura envolvente para quem procura aventura clássica, um super-herói e uma narrativa envolvente. Foi a fonte de um ícone que tem empolgado gerações, tanto na leitura, como no cinema, na banda desenhada e na cultura pop. Ao mesmo tempo, é uma leitura que aconselha um olhar crítico, consciente das representações coloniais e raciais que estruturam parcialmente o seu encanto. Recomenda-se, portanto, aos jovens de todas as idades que estejam dispostos a ler aventura com entusiasmo, mas também com distanciamento.
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