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Chamo-me Sebastião Barata e resido em Lisboa. Tenho 79 anos e leio desde muito novo. Uso a minha grande biblioteca para fazer vídeos e áudios que divulgo nas minhas redes sociais. Sigam-me!

“Clepsidra” é uma das obras fundamentais da poesia portuguesa moderna e um marco do Simbolismo em Portugal. Publicada em 1920 sem a intervenção direta do autor, reúne poemas escritos ao longo da vida de Camilo Pessanha e revela uma sensibilidade marcada pela melancolia, pela musicalidade e pela reflexão sobre a passagem do tempo.

O volume de “Clepsidra” que tenho, editado pela Alma Azul, abre com um maravilhoso prefácio de Eugénio de Andrade, um grande poeta contemporâneo, também beirão como Camilo Pessanha e seu grande admirador. Eugénio de Andrade considera Pessanha um “exemplo da mais alta ascese poética” comparável a Fernando Pessoa, Cesário Verde e Luís de Camões, para ele “os nomes supremos da poesia de língua portuguesa”. E afirma que, dos quatro, “só Camilo Pessanha amei em segredo como mestre”.

Ainda antes de entrar na análise da obra, quero esclarecer uma dúvida que se me apresentou sobre este título, que tanto tenho ouvido ler “Clépsidra” como “Clepsidra”. A palavra é de origem grega e, em grego, lê-se “clepsydra” (grave ou paroxítona); ao ser traduzida para latim, passou a ler-se “clépsydra” (esdrúxula ou proparoxítona), e porquê? Porque em latim “sy” é uma sílaba fraca (as sílabas fortes são lentas e as fracas são rápidas). A forma correta, segundo a norma atual, é a original, “clepsidra” (paroxítona), embora “clépsidra” seja uma variante ainda usada e reconhecida por alguns dicionários, como, por exemplo, o Houaiss que regista ambas as formas, mas afirma ser preferível a variante “clepsidra”.

O título “Clepsidra” é o nome de um recipiente graduado, com um pequeno furo no fundo, que foi um dos mais antigos relógios do mundo. O recipiente era cheio de água e a medição do tempo era feita nas marcas do recipiente, à medida que o nível da água ia baixando. Na minha opinião, Camilo Pessanha pretende significar com este título que “Clepsidra” é uma construção poética feita a partir de fragmentos de tempo, de representações difusas de uma realidade fugidia que se escoa, mas que se vão unindo na construção de uma unidade, consubstanciada no produto final, o livro.

Na verdade, a consciência de que tudo passa, se desfaz e escorre sem possibilidade de retorno era uma das grandes obsessões de Pessanha: a sua “Clepsidra” seria a medida dessa passagem inflexível. O tempo surge, pois, nos seus poemas associado à perda, à memória e à dissolução do sujeito.

A poesia de “Clepsidra” distingue-se pela sua forte musicalidade. As repetições, os ritmos suaves, as aliterações e as imagens vagas criam uma atmosfera quase hipnótica, em que o sentido nem sempre é imediato, mas se constrói por sugestão. Esta é uma característica essencial do Simbolismo: mais do que descrever diretamente a realidade, o poeta procura sugerir estados de alma, sensações e impressões.

Entre os temas mais presentes estão a melancolia, o desencanto, a morte, a saudade, o desejo impossível e a fragmentação interior. O sujeito poético parece muitas vezes dividido, incapaz de encontrar estabilidade no mundo ou em si próprio. Por isso, a leitura da obra transmite uma sensação de beleza frágil, como se cada imagem estivesse prestes a desaparecer.

Embora possa parecer uma leitura exigente, devido à linguagem simbólica e à densidade emocional dos poemas, “Clepsidra” recompensa o leitor atento. A obra não se lê apenas pelo significado literal dos versos, mas também pela sonoridade, pelas imagens e pela atmosfera que constrói. É um livro que convida à releitura, pois cada contacto com os poemas permite descobrir novas relações entre palavras, sentimentos e símbolos.

Na minha opinião, o maior valor de “Clepsidra” está na forma como Camilo Pessanha transforma sentimentos íntimos e difíceis de traduzir em poesia de grande beleza. A sua escrita é delicada, musical e profundamente sugestiva, tornando a obra uma referência indispensável para compreender a evolução da poesia portuguesa do século XX.

Resumindo: “Clepsidra” é uma obra essencial da literatura portuguesa. Pela sua musicalidade, pela profundidade dos temas e pela originalidade da linguagem, Camilo Pessanha afirma-se como uma das vozes mais importantes do Simbolismo. Apesar da sua complexidade, o livro permanece atual, porque fala de inquietações universais: a passagem do tempo, a perda, a memória e a fragilidade da existência humana.

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