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Chamo-me Sebastião Barata e resido em Lisboa. Tenho 79 anos e leio desde muito novo. Uso a minha grande biblioteca para fazer vídeos e áudios que divulgo nas minhas redes sociais. Sigam-me!

“Um Dia Chegarei a Sagres”, último romance de Nélida Piñon, é uma obra de fôlego épico que retoma alguns dos grandes temas da autora: memória, pertencimento, tradição oral, deslocamento e a força simbólica da língua portuguesa. Publicado em 2020, dezasseis anos depois de “Vozes do deserto”, o seu romance anterior, o livro foi recebido como um acontecimento literário e distinguido com o Prémio Pen Clube Brasil de Literatura 2020.

A narrativa acompanha Mateus, camponês do Minho criado pelo avô Vicente, que alimenta desde cedo o desejo de chegar a Sagres. Filho de uma prostituta que veio da cidade para opôr no mundo e logo abandonar nas mãos do seu velho pai, martirizado pelo descaminho que a sua única filha tinha levado. Camponês simples, mas culto, inicia o neto no conhecimento das glórias passadas do seu país, agora mergulhado na guerra fratricida entre D. Pedro e D. Miguel, e no início da desintegração do seu império colonial de outros tempos. Por isso, mais do que um simples destino geográfico, Sagres representa para Mateus uma promessa de sentido: o lugar mítico das navegações, da memória do Infante D. Henrique e de uma grandeza portuguesa imaginada como contraponto da pobreza, da aldeia e da dureza da vida rural. Ambientado no século XIX numa época de grandes mudanças, o romance constrói, pela trajetória individual de Mateus, uma reflexão ampla sobre Portugal, a sua história e os seus mitos.

Um dos pontos mais fortes da obra é a linguagem. Nélida Piñon escreve com uma prosa densa, solene e muitas vezes poética, próxima da oralidade e do ritmo das narrativas dos cronistas antigos. A autora não busca apenas contar uma história, mas recriar um universo cultural: a aldeia, os animais, a religiosidade popular, o peso da fome, a presença da morte, o fascínio pelo mar e o legado das grandes navegações. Nesse sentido, Mateus não é apenas uma personagem; ele encarna um povo marcado pela carência material e, ao mesmo tempo, por uma imaginação capaz de transformar a miséria em destino.

A relação entre Mateus e o avô Vicente dá ao romance a sua dimensão afetiva mais profunda. Vicente é raiz, limite e memória; a sua morte liberta o neto para a viagem, mas também o deixa entregue a uma herança ambígua, feita de silêncio, trabalho e imaginação. A obsessão por Sagres nasce justamente dessa combinação entre privação e sonho. Por isso, a viagem do protagonista de norte a sul de Portugal e, depois, pelo vasto mundo outrora português, não deve ser lida como uma aventura convencional, mas como um percurso interior, no qual o espaço português se torna espelho de uma identidade em formação.

A leitura, porém, pode exigir paciência. O estilo grandioso de Nélida Piñon, rico em metáforas e variações rítmicas, por vezes desacelera a ação e privilegia a contemplação, a memória e a reflexão histórica. Para leitores que esperam uma trama rápida, essa escolha pode parecer excessiva. Ainda assim, é justamente nessa lentidão deliberada que o romance encontra parte da sua força: ele convida a entrar noutro tempo, no qual a palavra carrega o peso do mito e da experiência coletiva.

Em síntese, “Um Dia Chegarei a Sagres” é um romance ambicioso, maduro e profundamente ligado à tradição literária em língua portuguesa. Ao narrar a caminhada de Mateus em direção a Sagres, Nélida Piñon transforma uma busca pessoal em meditação sobre memória, história, pobreza, desejo e linguagem. Não é uma obra leve, mas é uma leitura recompensadora para quem aprecia romances históricos e simbólicos, nos quais o destino de uma personagem ilumina o imaginário de uma civilização.

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