
Os contos de Conan, criados por Robert E. Howard nos anos 1930, ocupam um lugar central na história da fantasia moderna. Publicadas originalmente em revistas pulp, estas narrativas deram forma a uma das figuras mais carismáticas da literatura de aventura: Conan, o cimério, guerreiro errante de força prodigiosa, astúcia prática e espírito indomável. Mais do que simples histórias de luta e busca de tesouros, os contos de Conan ajudaram a definir o género da “espada e feitiçaria”, combinando ação rápida, cenários exóticos, perigos sobrenaturais e uma visão sombria da civilização.
A ação decorre na Era Hiboriana, um passado imaginário situado entre a queda de Atlântida e o início da História (a época atual da Terra), concebido por Howard para dar coerência e profundidade às aventuras do herói. Este cenário permitia ao autor recorrer livremente a ecos que nos chegaram de civilizações antigas, mitologias, povos bárbaros e impérios decadentes, sem ficar preso ao rigor histórico. Assim, reinos como Aquilónia, Estígia ou Zamora funcionam como versões fantásticas de culturas reconhecíveis, criando uma atmosfera simultaneamente familiar e lendária.
Conan não é apresentado como um cavaleiro idealizado nem como um salvador moralmente puro. É ladrão, mercenário, pirata, soldado e, em algumas histórias, rei ou futuro rei. A sua força física é importante, mas Howard também sublinha a sua inteligência instintiva, a capacidade de sobreviver em ambientes hostis e a recusa em submeter-se a autoridades corruptas.
Os contos desta série baseiam-se geralmente no mesmo esquema-base, girando à volta de três personagens: Conan com a sua inteligência e sagacidade, a sua força bruta e a sua espada indestrutível; uma mulher jovem, linda, princesa de algum reino ou então forte e grande espadachim como Conan, que vai ser a sua parceira; e um monstro, ou feiticeiro, ou fantasma com poderes sobre-humanos, que oprime a jovem ou o seu reino e que vai ser destruído pela dupla Conan e a sua bela aliada. Esta, no final, quase sempre se apaixona pelo herói.
Muitas aventuras opõem a vitalidade bárbara de Conan à fraqueza de sociedades sofisticadas, mas decadentes. Este contraste revela uma das ideias recorrentes de Howard: a civilização, embora brilhante, tende a produzir intriga, cobiça e decadência, enquanto o bárbaro conserva uma energia vital mais direta e honesta.
O estilo dos contos é marcado por um ritmo intenso, imagens vigorosas e uma mistura constante de aventura, horror e fantasia. Howard sabia criar cenas de combate físicas e imediatas, mas também atmosferas de ameaça antiga: ruínas esquecidas, feiticeiros cruéis, deuses monstruosos e segredos anteriores à humanidade. Em histórias como “A Torre do Elefante” ou “A Rainha da Costa Negra”, Conan enfrenta não apenas inimigos humanos, mas também forças que sugerem um universo vasto e perigoso. Essa combinação de ação muscular e mistério cósmico dá aos contos uma energia própria, diferente da fantasia comum na escrita de outros autores.
A importância dos contos de Conan está, portanto, tanto na personagem como no mundo que a rodeia. Robert E. Howard criou uma fantasia visceral, rápida e poderosa, capaz de unir brutalidade, melancolia e sentido épico. Conan tornou-se um arquétipo, porque encarna o desejo muito humano de liberdade absoluta perante governantes, sacerdotes, tiranos e monstros. Mesmo quando as histórias seguem fórmulas de aventura, nelas permanece uma tensão mais profunda: a luta entre instinto e decadência, liberdade e domínio, vida e morte. Por isso, quase um século depois, os contos de Conan continuam a ser lidos não apenas como entretenimento, mas como uma das fundações essenciais da fantasia heroica moderna.
Como apaixonado que sou pela literatura fantástica, histórias de terror, ficção histórica, ficção futurista e outros subgéneros da fantasia, adorei ler esta coletânea profusamente ilustrada “Os Contos mais Épicos de Conan”, organizada e publicada em Portugal pela Saída de Emergência, na qual estão reunidos treze dos mais conceituados contos da série “Conan”, a mais conhecida, lida, traduzida e adaptada de todas as séries escritas por Howard. Recomendo vivamente a sua leitura a todos aqueles que, como eu, são fãs de fantasia.
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