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Chamo-me Sebastião Barata e resido em Lisboa. Tenho 79 anos e leio desde muito novo. Uso a minha grande biblioteca para fazer vídeos e áudios que divulgo nas minhas redes sociais. Sigam-me!

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FILHO VEGETAL

O Rui era uma criança alegre e bem-disposta. Vivia com os seus pais numa casinha simpática, construída à beira da estrada. Tinha um grande quintal, com jardim, horta e algumas árvores, incluindo pinheiros, que foram deixados propositadamente, na altura da construção.

O Rui cresceu naquele ambiente rústico e bucólico. Desenvolveu, desde muito pequeno, uma grande ligação às plantas. Aquilo de que mais gostava era rebolar-se nas ervas e sentir o perfume das margaças, das margaridas, das leitugas, dos trevos, das serralhas, das campainhas, dos saramagos, das papoilas… A mãe, para agradar ao filho, tinha sempre muitas flores no jardim e a casa cheia de vasos por tudo quanto é sítio.

 

No tempo da escola primária, o Rui começou a ir para a mata próxima. Primeiro para o pinhal atrás da casa; depois, foi-se aventurando, cada vez para locais mais afastados. Adorava sentir o cheiro dos pinheiros e das estevas. Perdia tempos infinitos a observar as abelhas que vinham pousar nas flores, para sugar o néctar.

Os pais tinham algum receio e passavam o tempo a admoestá-lo para não se afastar para longe. Sabiam que ele conhecia aqueles campos como a palma da sua mão, mas não estava excluído o perigo de um mau encontro ou de um acidente. “Não é bom andar sozinho pelo campo, sabe Deus o que pode acontecer”, diziam eles com frequência. Mas o filho tinha muito mais tempo livre do que eles e não podiam estar sempre a controlá-lo. O tempo ia passando, o Rui ia crescendo e, felizmente, nada de grave acontecera. Por vezes, aparecia com umas escoriações, coisa sem importância.

Quando o Rui se fez adolescente, começou a pedir aos pais para o deixarem ir acampar na mata, aos fins-de-semana. No princípio, ofereceram muita resistência e até o proibiram de ir passear sozinho para a mata. O Rui começou a tornar-se uma criança triste e apática. Passava o tempo sentado no muro do jardim a olhar para os campos. Outras vezes, sentava-se no meio do jardim, a olhar para as flores e ali ficava tempos esquecidos. A Diretora de Turma chamou os pais à escola e informou-os de que, nos últimos tempos, o Rui estava diferente: andava triste, isolava-se muito e o aproveitamento escolar estava a cair. Os pais ficaram alarmados e, depois de uma conversa com ele, decidiram deixá-lo ir acampar nos fins-de-semana. Mas fizeram-lhe prometer que só iria quando o tempo estivesse bom e os pais deixassem.

Ficou tudo assente e, no dia dos seus anos, ofereceram-lhe uma tenda canadiana pequena, uma mochila de campismo e alguns acessórios para cozinhar no campo. Foi o dia mais feliz da sua vida. Desde então, sempre que podia, carregava tudo na mochila, montava-se na bicicleta e lá ia ele para a mata.

Na escola, tornou-se um bom aluno. Gostava especialmente das “Ciências da Natureza” e devorava tudo o que lia em livros ou na net sobre plantas. Era alegre e brincalhão, um bom companheiro no recreio. Mas, no fim-de-semana, deixava tudo e lá ia, sozinho, acampar na mata. A mãe ficava muito apreensiva cada vez que ele saía e só descansava quando ele voltava são e salvo. Mas, um dia, não voltou.

Os pais procuraram-no por toda a mata, mas não o encontraram. Alertaram as autoridades e fizeram-se todas as buscas possíveis. Os meios de comunicação deram grande destaque ao assunto, que foi primeira página dos jornais e telejornais. Os indícios eram escassos: foi encontrada a tenda montada numa clareira, a bicicleta e a mochila com todos os utensílios que costumava levar. Mas não havia sinais de violência, que pudessem indiciar rapto ou crime. Também a hipótese de acidente acabou por ser posta de lado, pois não foi encontrado o corpo ou quaisquer amostras de sangue, nem mesmo na bicicleta. Até foi dragada a lagoa próxima. A única coisa estranha foi a reação dos cães de busca, que ladraram ferozmente ao atravessar a clareira. Mas não havia quaisquer sinais de terra mexida no local e pensou-se que seria o rasto de algum coelho, que distraiu os cães.

Quando tudo serenou e o processo foi arquivado por falta de provas, os pais ficaram destroçados. A mãe começou a dar longos passeios pela mata, o que a acalmava. Por vezes, ao deslocar-se por entre as árvores, assustava-se com o ruído do vento: parecia-lhe ouvir a voz do filho, que a chamava: – “Mmmãããeee… Amo-te muito…”

Os anos foram passando, mas a sua obsessão pelos passeios não passou. Certo dia, enquanto descansava sentada sobre uma pedra, reparou num arbusto de que nunca se apercebera, que crescia mesmo no centro da clareira em que se encontrava. Começou a dar preferência àquele local e pôde acompanhar o crescimento do arbusto, que era cada vez maior. Na Primavera enchia-se de flores, que, semanas depois, murchavam e caíam. No seu lugar cresciam uns pequenos frutos, que secavam e se tornavam em bugalhos, semelhantes a berlindes. A mãe apanhava os que podia, que trazia e guardava em casa, como se fossem recordações do filho.

Passou mais uma dezena de anos e a mãe começou a ter dificuldade em dar os habituais passeios pela floresta, que começaram a ser mais curtos e espaçados. Por fim, teve mesmo de deixar de os fazer. Pediu, então, que plantassem no quintal aquele arbusto, que tanto a ajudava a suportar as saudades do filho. Assim foi feito. Ela regou-o e tratou-o muito bem e ele continuou a crescer, transformando-se numa árvore frondosa, onde as aves vinham fazer ninhos.

Nos dias de calor, a mãe, agora velhinha, vinha deitar-se à sombra daquela árvore. A brisa batia suavemente nas folhas e parecia-lhe ouvir a voz do filho: – “Mmmãããeee…, estou ansioso por poder abraçar-te.”

Certo dia, a mãe declarou solenemente à família: – “Quando morrer, quero ser sepultada no quintal, à sombra daquela árvore”. Assim se fez e, hoje, os fluidos dela sobem pelas suas raízes, vivem na sua seiva e extasiam-se num abraço apertado aos seus ramos.

 

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