
Comentário ao livro “O VENTO” de Claude Simon
Tanto quanto sei, “O Vento” é o único livro de Claude Simon editado em Portugal. Teve uma edição da Portugália em 1964(?) e outra da Quasi em maio de 2006, ambas esgotadas há muito. Não sei o que leva as editoras a não apostarem noutras obras do autor, dado que tem vários romances editados noutros países, incluindo o Brasil, e é um escritor que venceu o Prémio Nobel de Literatura, fator que atrai leitores.
Mas vamos ao livro, que é o que interessa neste momento. “O Vento” não é fácil de ler, pelo menos até nos inserirmos na forma como está escrito. Ao que li, foi um modo inovador de escrever que deu origem em França ao que ficou conhecido por “Nouveau Roman” e que Claude Simon utilizou nos romances seguintes. Posso comparar esta forma de escrever à expressão que consta do próprio livro: “a realidade é dotada duma vida própria (…) e então tentar encontrá-la, descobri-la, fazer com que se mostre, é talvez tão vão, tão decepcionante, como esses jogos de crianças, essas bonecas parideiras da Europa Central encaixadas umas nas outras, cada uma contendo, revelando outra mais pequena, até qualquer coisa de ínfimo, de minúsculo, de insignificante” (pág. 10). Faz lembrar as expressões numéricas da matemática com parênteses e parênteses dentro de parênteses, com tempos diferentes encaixados uns nos outros, com falas de pessoas diferentes encaixadas umas nas outras e com apartes, esclarecimentos, reparos dentro das segundas. Estamos a ler um acontecimento, abre um parêntese e conta outra coisa que vem a propósito e tanto pode durar uma palavra, como duas linhas ou uma ou duas páginas, para depois voltar ao assunto inicial. Mas o que está entre parênteses ainda pode ser interrompido para intercalar outra conversa, por exemplo, uma observação do narrador, que pode ser separada por travessões, em vez de parênteses. Depois de se perceber, até é uma história interessante e de leitura fácil.
Outra peculiaridade é o narrador estar sempre a mostrar alguma hesitação na narração da história. As ideias são, geralmente, apresentadas em duas ou três versões, como se não conseguisse escolher a que melhor descreve o facto. Reveja-se a citação que deixei atrás, onde todo o texto mostra esta peculiaridade: “(a) encontrá-la, (b) descobri-la, (c) fazer com que se mostre”; “(a) tão vão, (b) tão decepcionante”; “(a) ínfimo, (b) minúsculo, (c) insignificante”. E é todo o livro assim.
Haverá algum motivo para tal, ou é simplesmente uma mania de escritor para ser diferente? Penso que este estilo é o retrato perfeito da história que o livro nos conta. A personagem central é um homem de cerca de 30 anos que recebe a notícia de que tinha uma grande fortuna para receber, deixada pelo seu pai que ele nunca conheceu. Este jovem foi criado pela mãe que, entretanto, já morreu e tem uma personalidade muito especial, que os outros consideram louco, ou atrasado mental ou, na melhor das hipóteses, um indivíduo muito estúpido. De qualquer modo, é um maltrapilho com uma máquina fotográfica ao pescoço e uma pasta muito coçada na mão, artefactos que nunca larga. Como o Notário encarregue de fazer cumprir o testamento diz logo nas primeiras linhas, “o interesse” é a mola real que tudo move. Por isso, múltiplos interesses começam a girar à sua volta, na caça aos milhões. Mas ele por nada se decide, fala por meias palavras, é incapaz de tomar decisões. E a coisa vai acabar mal, mesmo muito mal para ele.
Vem a propósito apresentar a terceira característica da escrita de Claude Simon. Neste romance, como, ao que li, em toda a sua obra, ele não pactua com o “politicamente correto”, como hoje se usa dizer. Ele prezava muito a liberdade de expressão e não escreveu histórias para terem fins cor-de-rosa, muito menos moralistas ou edificantes. Esta história, como as histórias dos seus outros livros, não vai acabar bem, tal como uma grande parte dos episódios da vida não acaba bem para a maior parte das pessoas. A vida é como é e não talhada à medida dos nossos sonhos. São mais os fracassos do que os sucessos. São mais as horas más, tristes, infelizes do que as alegres, gratificantes, gloriosas. Como diz uma oração muito conhecida dos católicos, cá andamos “gemendo e chorando neste vale de lágrimas” que é a vida sobre a Terra.
Não será fácil adquirir este livro em português, pois está esgotado. Mas está disponível noutras línguas, assim como outras obras do autor, como “L’Herbe”, “Gulliver”, “La Route des Flandres” ou “L’Acacia”, só para citar algumas das mais conhecidas.
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