
Comentário ao livro “A FILHA DO PAPA” de Dario Fo
Lucrécia Bórgia é uma das personalidades mais controversas da História. Tornou-se personagem de peças de teatro, romances, óperas e, mais recentemente, filmes e séries de TV. Uns atacam-na e acusam-na de todas as atrocidades possíveis e imaginárias, como criminosa, assassina, adúltera, prostituta e até amante incestuosa do seu pai e dois dos seus irmãos. Outros procuram reabilitar a sua imagem e considerar que Lucrécia foi, nada mais do que uma vítima nas mãos do seu pai, o debochado, tirano e ambicioso Papa Alexandre VI e de seu irmão e braço direito do pai, Cesare Borgia, que se serviram da sua beleza e condição de bom partido, como moeda de troca para conseguir levar a bom termo as suas mais inconfessáveis ambições políticas. Para uns foi uma fera, para outros um cordeiro sacrificial. No que ficamos? Talvez nunca se chegue a uma conclusão, apesar das muitas investigações, tratados, ensaios e teses já produzidos sobre esta fascinante figura do Renascimento que, entre outros papéis, foi protetora e mecenas de poetas, pintores e outros artistas da Época.
Onde se situa o romance “A Filha do Papa” de Dario Fo? Claramente do lado daqueles que procuram reabilitar a imagem de Lucrécia. Nem podia ser de outra forma, sendo o autor um grande crítico dos poderosos do seu tempo (que é o nosso) que se servem dos seus postos para praticarem e fomentarem a corrupção, o desvio de fundos em seu proveito e utilizam a sua permanência nas cúpulas do poder para enriquecerem, antes que saltem fora e tenham de dar a vez a outro, que vai comportar-se da mesma forma, seja qual for o Partido, a posição deste no espetro político ou a cor da sua bandeira. Ao escrever este romance, Dario Fo vai demonstrar que estes males não são de hoje, mas têm origem numa tradição de muitos séculos, especialmente na sua querida Itália, tão massacrada pelo compadrio, a corrupção, as máfias de todos os tipos, que não olham a meios para atingir os seus fins, incluindo a eliminação física daqueles que lhes fazem sombra ou podem denunciar as suas atividades inconfessáveis.
Dario Fo começa por explicar quem foi o “fundador desta ralé, perdão!, dinastia” (pág. 40), Alfonso Borgia, que começou como escriturário na corte do rei de Aragão e acabou como Papa Calisto III, o primeiro Papa de origem espanhola e protetor do seu sobrinho Rodrigo Borgia, que viria a ser o segundo Borgia e o segundo espanhol a colocar na cabeça a tiara papal, com o título de Alexandre VI. Será que a fama deixada por estes dois contribuiu para que a Espanha não tivesse mais Papas até hoje? Fica a piada…
Esta é a história de Lucrécia Bórgia, segundo Dario Fo. Rodrigo Bórgia era cardeal, mas teve, como era habitual entre nobres e clérigos, uma grande quantidade de amantes; não havia fêmea que lhe escapasse, fosse qual fosse o seu estatuto social. Mas teve uma muito especial, conhecida por Vannozza Cattanei, à qual montou casa e considerava como uma esposa; arranjou-lhe um marido-fachada, ao qual deu um bom cargo no Vaticano e pagava-lhe bem; dela teve quatro filhos, dos quais era um pai extremoso, que o julgavam tio, irmão da mãe; todas as noites ia dormir lá a casa, onde tinha oficialmente um pequeno quarto, onde as crianças julgavam que dormia, e as crianças adoravam-no sem desconfiar que fosse o seu verdadeiro pai. Um desses filhos era Lucrécia e os outros eram três rapazes, um dos quais se chamava Cesare. Só quando o pai foi eleito Papa, é que os filhos souberam que era ele o seu verdadeiro pai; Lucrécia tinha 11 anos e ficou destroçada, porque os seus tutores lhe tinham ensinado que se deve dizer sempre a verdade. Cesare seguiu a vida religiosa e delineou o seu projeto de se tornar o braço direito do Papa seu pai. Para o efeito, eliminou o seu irmão mais velho que estava no seu caminho. Lucrécia era menina muito linda e dotada, e logo o irmão e o pai começaram a gizar projetos para se servirem dos dotes dela para fazer alianças e aumentar os domínios e o poder do Papa. Obrigavam-na a casar com quem não queria e matavam-lhe os maridos quando estes começavam a ser empecilhos para os seus negócios inconfessáveis. Faziam desaparecer os jovens por quem ela se apaixonava; eles próprios, segundo as más línguas, abusaram sexualmente dela, aproveitando-se do grande amor que ela lhes tinha. Obrigaram um dos maridos que não conseguiram matar a declarar-se impotente sexual para terem um motivo para declarar o casamento nulo. Ficaram-lhe com um filho que Fo diz ser de um seu apaixonado, declarando-se pais da criança (primeiro o irmão Cesare e depois também o pai), o que levou as más línguas a declará-la tão depravada que até o pai e o irmão lhe serviam. Não vou contar mais, nem entrar em mais pormenores, mas dá para entender as tramoias de que foi vítima, segundo Dario Fo, e orquestradora, segundo outras fontes.
No fim de ler este livro, fica-se com a certeza de que Fo conseguiu o que queria: mostrar que os poderosos sempre conseguem, através de chantagem, de subornos, de enganos e, quando nada dá resultado, através de meios mais radicais, alcançar os seus fins. A linguagem utilizada pelo autor e a forma como apresenta a sucessão dos acontecimentos tornam a leitura agradável, apesar da repugnância que os factos narrados nos provocam cada vez que se vira a página. Só lá mais para o final, depois de se tornar duquesa de Ferrara, ter uma mão cheia de filhos e ser idolatrada pelos seus súbditos, Lucrécia começa a ter alguma felicidade e a leitura se torna mais recompensadora. Mas preparem-se, porque nem então ela se vai livrar de mexericos, de conspirações, de guerras e também de azares. Leiam, que vale a pena.
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