
Pedrito reside numa pequena quinta, situada no vale, aos pés da Vila. Ali nasceu, ali vive e de ali nunca saiu até aos seis anos de idade. Desde então até agora, que tem treze anos, só sai para ir à escola.
Gosta de aprender, mas o que lhe dá mais prazer é a viagem de ida e de regresso. Sai de manhãzinha, muito cedo e sobe toda a encosta nascente até à Vila. Evita ir pela estrada, mais pelo cheiro dos carros, do que pelo perigo de ser atropelado. Agonia-o aquele cheirete a óleo e a combustível queimado. Se um carro é forçado a fazer uma travagem brusca, o fumo acre de pneu entra-lhe nas narinas e sente-se desfalecer. Por isso, gosta mais de ir pelas veredas, velhas de séculos.
Inebria-se com o perfume da mata. Para sentir melhor o cheiro penetrante da resina, agarra-se aos pinheiros e leva as mãos pegajosas à cara. Mas é das estevas que mais gosta, especialmente na Primavera, quando estas ficam cobertas de flores brancas. Parece um manto de neve, cujo perfume o delicia. Por vezes, corta algumas flores, que mete na sacola. O seu perfume ajuda-o a passar melhor as horas de estudo, mas também o estimula a querer que o tempo passe depressa, para poder voltar para casa.
Pedrito está sempre ansioso pelos fins-de-semana, porque não tem de ir à escola e pode passar todo o tempo em contacto com a natureza. Adora deitar-se no meio das ervas e ficar tempos infinitos a absorver os seus perfumes. São as papoilas, as margaças, o rosmaninho, as malvas e os dentes-de-leão. Às vezes, pica-se nos cardos ou fica com ardor nas mãos por causa das urtigas, mas ele não se importa.
De vez em quando, apanha um grilo e leva-o para casa, porque gosta muito de o ouvir cantar. Não se esquece de apanhar um pouco de serralha para lhe pôr na gaiola, pois sabe que é a erva de que ele mais gosta. Mas acaba sempre por ficar com pena do bichinho estar preso e solta-o.
Neste sábado, está um sol radioso e as plantas estão cobertas de flores. Estamos agora em maio e, nesta primavera, os campos estão mais lindos do que nunca. Pedrito começa a rebolar por entre os trevos, as campainhas e as serralhas. O perfume intenso das margaças e das margaridas entra-lhe pelo nariz e penetra-o até ao âmago do seu ser. Continua a rebolar e os sucos das leitugas e dos saramagos cobrem-lhe as mãos, os pés, a face. Sente-se penetrado até ao mais profundo do seu corpo pelos perfumes que o inebriam.
Então invade-o uma sensação que nunca tinha experimentado. Um prazer intenso domina-o por completo e, por breves instantes, quase perde a consciência. Depois, uma grande paz desce ao seu coração, fica longo tempo deitado da relva, cochilando um pouco e gozando o momento.
Pedrito não sabe, mas já é um adolescente.
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