
“A Fenda” de Doris Lessing – Comentário
Este romance é o último livro que Doris Lessing escreveu. Foi publicado em 2007, o ano em que foi galardoada com o Prémio Nobel de Literatura, tinha ela 87 anos de idade. Nunca o Prémio tinha sido atribuído a uma pessoa tão idosa. Um facto interessante é que, em vez de ser uma bênção, o Nobel foi para ela um “maldito desastre”, como afirmou numa entrevista. Foram tantas as solicitações para entrevistas, sessões fotográficas, conferências e outras atividades, que perdeu completamente a capacidade de escrever. Ainda viveu 7 anos, mas os últimos tempos foram deprimentes, porque perdeu completamente a memória: já não sabia que tinha sido uma escritora famosa, liam-lhe trechos dos seus livros e ela emocionava-se a ouvir, mas desconhecia que tinha sido a autora deles. Assim, este livro tem um duplo valor, que me ampliou o prazer de o ler.
Segundo os estudiosos da obra de Doris Lessing, a sua escrita teve três fases: uma primeira, quando era jovem, em que se dedicou, fundamentalmente, a temas de intervenção política e social; passou, depois a escrever obras de caráter mais intimista, bastante autobiográficas; por volta de 1970, despertou para a espiritualidade e a metafísica, passando a escrever sobre temas exóticos, sem, no entanto, deixar de escrever livros sobre temas característicos de fases anteriores. Foi nesta 3ª fase que escreveu uma série de 5 livros de ficção científica, chamada “Canopus em Argos: Arquivos”, ambientada em planetas de sistemas estelares, onde nem as naves espaciais conseguirão alguma vez ir. A sua viragem para este tipo de temas foi muito mal recebida pelos leitores anteriores e houve quem considerasse que ela tinha perdido todas as suas qualidades literárias. No entanto, ganhou um novo segmento de leitores, os que gostam deste género.
Na minha opinião, “A Fenda” insere-se um pouco nesta fase, mas não deixa de ser também um livro de que vão gostar muito os leitores que lutam nas causas feministas e se batem pela igualdade de género e os direitos das mulheres. Senão, vejamos:
Em tempos imemoriais, havia uma comunidade de mulheres, quase diria de “sereias”, que viviam numas grutas à beira-mar. Eram quase anfíbias e alimentavam-se dos peixes que pescavam; passavam o tempo estendidas nas rochas, faziam pentes das espinhas e protegiam-se com vestuário feito de pele de peixe. Durante muitas “eras”, o seu mundo resumia-se àquele pequeno espaço e não sentiam curiosidade de saber se o mundo era mais do que aquilo. Apareciam grávidas sem saber como e geravam crianças iguais a elas. Por vezes, nasciam bebés com deformidades, que eram lançados ao mar para alimento dos peixes.
Mas, certa vez, nasceu um bebé que, em vez de ter uma “fenda”, tinha uns penduricalhos ao fundo da barriga, que foi lançado ao mar, considerado um “monstro”. O pior foi que, a seguir a ele, começaram a nascer outros, cada vez em maior número. Experimentaram cortar-lhes os penduricalhos, mas morriam imediatamente e deixaram de o fazer. Repararam então que eles expulsavam os líquidos orgânicos pela ponta do seu tubinho, pelo que passaram a chamar-lhes “esguichos”. Passaram a deixá-los no cimo da escarpa, onde havia ninhos de águias, para lhes servirem de alimento. Os anos foram passando e aperceberam-se de que havia cada vez menos nascimentos e a comunidade diminuía a olhos vistos. Entretanto, alguém reparou que as águias apanhavam os “esguichos” e os levavam não sabiam para onde, em vez de os comerem no local. Uma mais curiosa subiu ao alto da escarpa e viu uma coisa que mudou para sempre a vida da comunidade: descobriu que os bebés “esguichos” eram levados pelas águias para um vale, onde eles continuavam vivos e a crescer.
Depois de muitas peripécias, as duas comunidades acabaram por se encontrar. Elas viram que o esguicho crescia quando lhe tocavam, descobriram o prazer do sexo e resolveram o problema da queda populacional. Mas não foi fácil o convívio, porque os bebés “esguicho” tinham uma personalidade muito diferente dos bebés “fenda” e as agora “elas” continuaram a viver nas suas grutas e os “eles” a viver no seu fértil vale. Será que alguma vez vão passar a viver juntos? Será que elas vão deixar a sua arriba e ser capazes de viver no vale, com tudo o que isso implica, em matéria de habitação, alimentação, vestuário, proteção de predadores, criação dos filhos, etc.? Que tipo de sociedade vão constituir: familiar ou comunitária? E quem vai ter de ceder mais, os homens ou as mulheres? E quem vai dominar na comunidade: os homens ou as mulheres?
É um livro muito interessante, uma história corrida que se lê facilmente e com muito agrado. Na minha opinião, pode também ser considerada uma caricatura da nossa sociedade, com o que tem de bom e de mau; eventualmente, uma utopia da sociedade ideal para a autora, tal como já havia tentado construir nos seus mundos imaginários de Canopus e Sirius, da série de ficção científica atrás referida.
A leitura deste livro vai desfazer nos leitores que ainda têm medo dos autores Nobel, o mito de que são escritores com uma escrita difícil, hermética ou demasiado elevada para o comum dos leitores. Recomendo vivamente.
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