
Feliz equívoco
Eu sou a empregada da reprografia, onde o senhor costumava ir encadernar os textos do curso de Engenharia. Não sei se está a recordar-se, era aquela que se chamava “Fotocopia” sem acento e ficava naquela rua um pouco escondida, perto do Instituto Superior Técnico. Sabe que já fechou há três ou quatro anos?
O senhor costumava aparecer no final dos semestres e eu perguntava a mim mesma: Este não será parvo?! Agora que acabou o semestre é que vem encadernar as fotocópias dos livros de estudo para as cadeiras. Terá chumbado e vai precisá-los no ano que vem? Ou será um maníaco da arrumação e gasta este dinheiro todo só para ficar com a papelada guardada? Mas que me interessa isso?! Cada um faz o que quer ao seu dinheiro.
Mas o que mais me intrigava era a sua idade. E dava comigo a pensar: Para que quer um homem que deve ter mais de sessenta anos um curso de Engenharia do Técnico? Agora que está à beira da reforma é que anda a tirar um curso superior? À beira da reforma?! O que ele deve é já estar reformado, senão como podia vir aqui a esta hora?
No final de cada semestre, durante cinco anos, lá estava o senhor, de novo, a pedir a encadernação de apontamentos de cadeiras diferentes do semestre anterior. E voltava eu a pensar: O velhote passa sempre! Não tem cadeiras atrasadas. Deve ser um “crânio”, com esta idade… E eu, que sou nova, estou para aqui neste reles emprego, sem coragem para mudar de vida…
Para mim, já era um ritual fazer as suas encadernações, o que me dava um certo prazer. Mas, a certa altura, deixou de aparecer. E lá comecei eu, de novo: Será que já acabou o curso? Ou terá arranjado outra reprografia melhor ou mais barata para lhe fazer os trabalhos? O pior é que não é o único cliente perdido. Eu bem digo ao patrão que este nome de “Fotocopia” sem acento não atrai ninguém. E o local também não ajuda…
Não sei se se recorda de mim: sou a empregada daquela reprografia, como já lhe disse… Ah, lembra-se!… O senhor está um pouco mais envelhecido, mas todos estamos, é a lei da vida. Não admira, já passaram sete anos desde a última vez que nos vimos!…
Desculpe o incómodo, mas, ao vê-lo passar em frente do escritório, não resisti ao impulso de lhe vir falar. É que lhe queria agradecer muito pelo que o senhor fez por mim. Não esteja admirado!… Pode não acreditar, mas é verdade. Sem o seu exemplo, eu ainda hoje seria a modesta empregada de uma reprografia sem futuro. Enchi-me de coragem, matriculei-me na Faculdade e tirei o curso de Gestora de Marketing, que era o meu sonho desde criança. Agora trabalho na delegação portuguesa de uma multinacional que fica aqui neste prédio e sinto-me muito feliz e realizada.
Fiquei muito contente, felicitei-a e agradeci-lhe ter vindo falar-me, mas a verdade é que não fiz mesmo nada por aquela moça. As encadernações que ela me fazia eram os apontamentos do meu filho que eu gostava de conservar como recordação no final dos semestres, porque foi sempre um bom aluno de Engenharia, e hoje é colaborador de uma das maiores empresas do nosso País, onde o seu trabalho é muito apreciado.
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