
“CAPITAL FUCK: OS CONTRATOS DO COMERCIANTE. UMA COMÉDIA BANCOCRÁTICA”, de Elfriede Jelinek
É o primeiro livro que leio de Elfriede Jelinek, uma autora austríaca vencedora do Prémio Nobel em 2004. Contestatária por natureza e formação, os seus livros são textos corrosivos e críticos, mas, ao mesmo tempo, satíricos e irónicos. São também retratos muito reais da comédia humana, nesta nossa sociedade de faz de conta, de exploração do homem pelo homem, mais da mulher pelo homem, do pobre pelo rico, do inocente pelo sabidão, do assalariado pelo patrão, pelo cidadão pelo político.
Neste livro que foi escrito em linguagem teatral, com vista a ser levado à cena, critica a exploração dos depositantes pelos banqueiros, dos aforradores pelos investidores, dos contribuintes pelo Estado. Toma como ponto de partida a crise financeira que se abateu sobre as sociedades capitalistas da América e Europa a partir de 2007, com as consequências que todos conhecemos ao nível das falências de bancos, da perda das aplicações das famílias em produtos que consideravam seguros, do aumento do desemprego e da subida brutal dos impostos para fazer face ao aumento exponencial das dívidas soberanas dos estados.
Elfriede Jelinek critica tudo e todos. Ninguém se pode considerar inocente e que apareça aquele que se considere digno de “atirar a primeira pedra”, como disse Cristo aos que queriam apedrejar a mulher adúltera. Os depositantes são culpados, porque se deixaram levar pela ganância de conseguir “15% de juros” para as suas poupanças; os corretores e os especuladores, porque os enganaram na ânsia de embolsar as suas elevadas comissões; os fundos de investimento, porque bem sabiam que nunca poderiam pagar “juros de 15%”; os banqueiros porque usaram a aparente solidez e tradição do seu “bom velho nome”, para enganar a todos e embolsar muitas “migalhas” para fazer um bolo gigante que eles vão comer.
Não resisto a transcrever uma passagem significativa: “Se seguíssemos a sua lógica de querer receber o que investiu, com 15% de lucro, claro, que nós jurámos a mãos, a braços e a pés juntos, você podia começar já a fazer as trouxas, seu trouxa, seu idiota, seu palerma incorrigível, que não sabe que todas as coisas gloriosas são simples, mas nem todas as coisas simples são grandes…”. É por isto que os pequenos investidores bem podem esperar, bem podem contestar, bem podem sonhar, que o seu dinheiro, a sua poupança para a reforma, para gozar férias ou para a educação dos filhos, não voltam mais, foi minguando com a ginástica a que foi submetido e desapareceu, não existe mais, pelo menos para si. Como diz a autora, está a gozar umas grandes férias nas Caraíbas, onde você não pode sequer ir visitá-lo, porque já não tem dinheiro para a viagem.
O título “Capital Fuck”, atribuído pelo encenador Emanuel de Sousa que, pelo Ponto Teatro, apresentou a peça ao público português em 2012, é sugestivo do significado que a autora lhe quis dar ao chamar-lhe “Os Contratos do Comerciante. Uma Comédia Bancocrática”. Na verdade, mostra-nos o ponto a que chegou o capitalismo liberal e como a atividade bancária se transformou num negócio digno de inspirar uma comédia hilariante, embora de um humor negro, demoníaco até. Aproveito aqui para elogiar o extraordinário trabalho de tradução que foi feito por Helena Topa. Não deve ter sido nada fácil traduzir e adaptar à nossa realidade e às caraterísticas da língua portuguesa uma escrita em que as palavras são usadas com diversos sentidos, com segundos significados e numa língua (a alemã) com uma morfologia muito diferente da nossa.
E agora, o que lhe resta, pequeno investidor? O seu dinheiro morreu, a sua independência económica morreu, o futuro dos seus filhos morreu (segundo a autora, foi você que matou os seus filhos, para não sofrerem com o que lhes fez), o seu emprego desapareceu, a sua casa desmoronou-se… A autora termina com uma sugestão radical que pode resolver o seu dilema. Como só Elfriede Jelinek teria a coragem de lhe sugerir.
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