
Correio azul
É hora do almoço, quando entro na estação de Correios. Tiro a senha 67, olho para o plasma e vejo que vai no número 53. Ao balcão, apenas dois postos abertos.
Claro que fico desanimado. Mas que hei de fazer? Só me resta esperar. Sento-me num daqueles bancos que há nas estações dos correios, que são grandes para duas pessoas e pequenos para três, que, felizmente, só tem um lugar ocupado. Também há um daqueles que são grandes para um e pequenos para dois, que está ocupado por duas senhoras. Uma delas, a mais idosa, tem cerca de setenta anos e usa um vestido de chita muito gasto, que desce até ao meio da perna. Na cabeça, traz um chapéu de palha, enfeitado com o que resta de um ramo de frutos. Levanta-se frequentemente e vai observar o que se passa nos postos de atendimento. Torna a sentar-se, meia anca no banco e meia anca no ar, e faz comentários com a companheira de assento.
O serviço evolui com muita lentidão. Ttiiim… 55!… É uma senhora de meia-idade que quer fazer um telefonema, mas não atendem do outro lado. “Há gente em casa, de certeza”, diz. “Então marque outra vez, vá lá agora”, diz a empregada, pacientemente. Ttiiim… 58!… “Quem tem o 58?…” É um senhor que se passeia pela sala, de telefone no ouvido. “58!…” “Desculpe, sou eu”. É atendido.
“Eu aqui com tanta pressa…” queixa-se a idosa do chapéu de palha, enquanto se compõe no estreito assento. Levanta-se e começa a circular em frente do balcão. Cada vez que alguém se aproxima, de senha na mão, ela acompanha-o. Ttiiim… 61!… “Tenho tanta pressa…”, diz ela, mas o outro não se impressiona. Ttiiim… 62!… “Já é tão tarde…” e aproxima-se mais do balcão. Mas alguém pousa a senha e lança-lhe um olhar furioso.
Arrastadamente, as chamadas vão-se sucedendo. No posto 1, ao canto do balcão, a empregada atende há um bom bocado um cliente com um monte de encomendas para despachar. Ttiiim… 65! No posto 4, mesmo à minha frente, é atendido um jovem que pretende enviar um fax. Preenche o impresso, enquanto a empregada aguarda. Paga e afasta-se discretamente. “Finalmente, sou eu a seguir”, diz a senhora do chapéu, de senha na mão e olhos no plasma. Entretanto, a empregada levanta-se e dirige-se ao aparelho de fax, no qual introduz uma folha de texto. Digita um número e aguarda. Pi,pi,pi,pi,pi,pi,pi… Digita novamente e volta a aguardar mais um pouco. Pi,pi,pi,pi,pi,pi,pi… Nova tentativa.
“Isto é uma vergonha, tanta gente para atender e vai fazer serviço interno”, queixa-se a idosa do chapéu de palha, a meia voz, enquanto torce a cara na nossa direção. “Coisas que pode fazer à tarde, certamente. Só espero que, a seguir, não se lembre de ir almoçar”, diz ela. Entretanto, lá segue o fax. Passa a folha e é impresso o comprovativo. “O senhor, faça favor, aqui tem”, diz a empregada ao jovem.
Ttiimmm… 66! “Até que enfim!”. “Boa tarde, minha senhora, que deseja?”, diz a emprega pacientemente. “Envelopes azuis para esta carta”. “Aqui tem o envelope. São oitenta cêntimos”. “Mas eu quero dez envelopes, para não andar sempre no caminho”. “Então, um momento, por favor”. A empregada levanta-se e desaparece.
“Não querem ver que agora foi à casa de banho! Isto é uma incompetência a toda a prova e uma falta de respeito pelas pessoas. Com a minha idade e os meus problemas das costas, deixa-me aqui de pé à espera.” E continua a debitar sentenças no mesmo estilo, enquanto gesticula com veemência. “Desculpe, minha senhora, mas não tinha aqui tantos envelopes como a senhora queria e tive de ir buscar ao armazém”, diz a empregada, que acaba de chegar. “São oito euros”. A senhora do chapéu de palha retira calmamente um porta-moedas da carteira, procura, procura… tira umas moedas… “Só tenho quatro euros”. “Então só pode levar cinco envelopes”, diz a empregada. “Pensando melhor, dê-me só um para esta carta, porque ainda quero ir ao supermercado comprar uma sandes para o meu almoço.”
Ttiiiim… 67! Balcão 4. Finalmente, hora e meia depois, chegou a minha vez. Dirijo-me ao balcão. “Boa tarde, faça favor de dizer”. “Boa tarde, minha senhora”, digo eu, resignado. “Só quero um selo para esta carta.”
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